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quarta-feira, 1 de junho de 2011

QUANTO VALE A AMAZÔNIA?


Quando se trata da Amazônia Legal, o tema cobertura vegetal aparece, via de regra, como a principal preocupação. Mas o patrimônio ambiental dessa extensa parcela do território brasileiro vai além da floresta e outros tipos de vegetação. Inclui, por exemplo, um subsolo formado por rochas com alto potencial de armazenamento e transferência de água potável e um solo com um estoque considerável de carbono, que, se liberado para a atmosfera, pode alterar o balanço dos gases de efeito estufa.

E quanto vale este patrimônio? Pergunta difícil. De diversas respostas “corretas”. Mas, necessária. O IBGE publicou o estudo: “Geoestatísticas de Recursos Naturais da Amazônia Legal” (IBGE. 2011), com informações sobre os recursos naturais da região - vegetação e cobertura da terra; relevo; solos; e rochas e recursos minerais que pode ajudar a responder a esta pergunta.

A Amazônia Legal ocupa 5.016.136,3 km2 (quase 59% do território brasileiro). Nela vivem em torno de 24 milhões de pessoas, em 775 municípios (AC, AP, AM, MT, PA,RD, RR, 98% de TO, 79% do MA, 0,8% de GO). Além de conter 20% do bioma cerrado, a região abriga todo o bioma Amazônia, o mais extenso dos biomas brasileiros, que corresponde a 1/3 das florestas tropicais úmidas do planeta, detém a mais elevada biodiversidade, o maior banco genético e 1/5 da disponibilidade mundial de água potável.

O estudo investigou 14 indicadores (potencial hídrico, ~ 45% de toda a água subterrânea do país está na região; combustíveis fósseis; e da formação de concentrações de minérios e outros). O conjunto de informações é pertinente não só pelo que informa, mas pelo que ignora. Em épocas de grandes projetos de impacto ambiental amplo, mudanças em modelos de produção agrícolas, marcos legais, etc. O estudo ajuda a conhecer um pouco mais de um sistema pouco conhecido. De tão pouco conhecido, o risco de grandes intervenções torna-se maior. Quando não entendemos, temos que ser cautelosos. Algo que os homens já deveriam ter aprendido com a experiência com as mulheres rsrsrs.

O custo do Patrimônio Natural amazônico pode ser calculado sob várias perspectivas, que podemos simplificar em 3:

1. Valor dos bens naturais aplicados imediatamente no mercado. O tipo de cálculo que fazem os madeireiros e mineradores na região. Se vale, venda. Neste critério, as estimativas de valor vão de USD 82 trilhões a 400 trilhões Como eles calculam isto? preços de mercado dos bens disponíveis.

2. Valor de manter reservas de recursos finitos que tem potencial exponencial de aumento de valor. Guardar para vender, mais caro, depois. Neste critério, a Amazônia poderia gerar até USD 2 Quatrilhões em vendas mitigadas pelos próximos 50 anos.

Estas duas perspectivas tratam do valor como referenciado ao potencial de compra/venda, ie, pelo mercado. Outra perspectivas seria:
3. Valor de manter recursos, utilizando-os em níveis bem baixos, para não gerar impactos negativos em clima e nos demais ecossistemas. Guardar para não vender. Neste caso, o valor da Amazônia está em sua capacidade de mitigar efeitos negativos das mudanças climáticas. O PNUMA calcula que neste caso, a preservação da maior parte deste bioma evitaria perdas de estimadas em USD 50 trilhões, fora o custo em vidas.

 
Não só a opção #3, toda escolha de uso de recursos da Amazônia passa pelo custo de oportunidade. Não utilizar recursos da região (por exemplo, seu potencial hídrico para geração de energia) representaria ter que usar de outras fontes (petróleo, por exemplo), não ampliar a oferta de energia para a região, ter menos empregos na área, etc. Por outro lado, utilizar dos mesmos recursos significa reduzir a capacidade futura de exploração, impactar (possivelmente) o clima, etc. Cada ação, ou falta de ação tem um custo que precisa ser combinado com o preço do estoque natural.

Por último, mas primeiramente também há 24 milhões de pessoas que vivem na região e em condições dentre as piores do país. A região apresenta alguns dos piores índices nacionais de: Mortalidade infantil, desnutrição, subregistro civil, escolaridade, igualdade entre gêneros, etc. O custo de um modelo de exploração de riquezas precisa tomar em conta o preço social para o desenvolvimento desta população.

Muito se fala de uso sustentável. No powerpoint é tudo muito bonito. É possível produzir sem agredir a natureza, etc... No mundo real, não existe exploração não-subdisiada, em escala suficiente para manter a população local, sem impacto no estoque ambiental. É possível minimizar, adminstrar este impacto. Mas, ele é inevitável. Não se trata de uma equação E/OU, é OU/OU mesmo.  Não explorar a região agora, tem um custo de subsídio (para manutenção das condições sócio-economicas das populações da área) que deve ser pago pelo restante da sociedade. Explorar tem o custo da redução de estoques e no impacto (danoso) no restante das condições de sustentabilidade. O complexo politicamente é que alguns custos são presentes e facilmente identificados, outros são potenciais e difusos. As decisões tendem a se basear na análise dos custos imediatos e óbvios.



Em resumo, os dados do IBGE ajudam a perceber que há uma conta a ser feita, antes de ligar ou mesmo desligar os motosserras.

O Estudo todo está em:


quinta-feira, 28 de abril de 2011

O QUARTO DA MINHA FILHA & AS EMISSÕES DE CARBONO


Incontáveis vezes repeti a minha filha. - Tire esta bagunça do chão de seu quarto! - Deixe seu espaço organizado! E outros destes conselhos que todos os pais dão e todos são igualmente ignorados.

Noutro dia, entro no quarto dela para a vistoria de rotina. Já com o discurso de sempre na ponta da língua. Mas, tenho uma surpresa. Está arrumado! Associo com a conquista campeonato brasileiro pelo FLU e concluo: Jesus está voltando! :-)

Antes de começar a confessar meus pecados e me preparar para o fim do mundo, decido guardar um livro. Abro o armário. É então que sou atingido por uma avalanche de roupas sujas, papéis, livros e outros objetos até hoje não identificados. Toda a bagunça do quarto, entulhada no armário.

Ao ser confrontada, minha filha responde. - Pai, você disse que não queria nada desorganizado no meu espaço. Dentro do armário não faz parte do meu espaço.

Não há indicador que não possa ser manipulado. Não há político que não tenha sido criança e aprendido a manipular um indicador. Este é o caso das emissões de CO2 e dióxido de carbono.

Quando um país relata suas emissões de carbono para as Nações Unidas, é o dióxido de carbono que sai de chaminés, tubos de escape e incêndios florestais do seu território. Mas e sobre o carbono emitido em outro lugar por pessoas fazendo bens que este país importa? Em outras palavras, e o armário?

Um estudo recém publicado (PNAS, Glen Peters e Outros) examina como o quadro atual das emissões de carbono do mundo se reposicionaria, se o carbono de bens e serviços fosse cobrado contra a conta do consumidor final, não o produtor inicial.

Assim, enquanto Europa se orgulhar de emitir menos carbono em seu próprio território do que em 1990, um consumo do ponto de vista do consumo das importações européias, provenientes somente da já cancela todo o suposto ganho.

Em geral, o estudo constata que as importações líquidas de carbono consagradas em países desenvolvidos cresceram de 400 milhões de toneladas em 1990 para 1,6 mil milhões de toneladas em 2008 — uma taxa de crescimento mais rápida do que a economia mundial ou das emissões globais de carbono.

Na década de 70, o Japão e os EUA já começaram a exportar poluição e consumo de energia barata, quando transferiram grandes siderúrgicas e outras para os países emergentes, como o Brasil. Alumínio, por exemplo, consume quase 3% de toda a energia elétrica brasileira. Depois, exportamos a preços módicos para os europeus e japoneses, que guardam sua energia para produção de maior valor agregado.

Em resumo, minha filha tem futuro no mundo. Só não sei se o armário agüenta.



sexta-feira, 11 de março de 2011

RÉQUIEM DE UM ZUNIDO


Em 2005, começaram a surgir relatos do sumiço. Primeiramente no Hemisfério Norte, onde todos nossos problemas contemporâneos parecem começar. Depois, foram informes de sumiços africanos, asiáticos e, por fim, sul-americanos.

Há também relatos antigos do problema. Textos indianos do século 5 contam sobre ele. Diversos registros europeus medievais. Alguns textos norte-africanos de mais de 1000 anos falam disto. Hieróglifos do Crescente (então) Fértil de 3000 anos atrás contam fatos semelhantes. Eram tempos onde os homens acreditavam que a natureza era a caligrafia dos deuses. Liam no sumiço delas presságios, avisos e castigos. Os homens faziam algum sacrifício (geralmente dos outros) e a coisa voltava ao normal.

Mas, passados os séculos, criamos a ciência da lei da causa e do efeito. Inventamos também a política da lei que diz que todo efeito ruim é causado por outro. Cientistas financiados por políticos, sempre no hemisfério norte, apressaram-se em “descobrir” a causa: uma bactéria. Bombardeiem a bactéria! Congelem suas contas bancárias! Fomos dormir sossegados.

E sossegados ficamos, porque o zunido delas seguiu ausente, em um silêncio crescente. O problema, que em outras épocas sempre se mostrara passageiro, não foi embora. A população mundial de abelhas (não me perguntem como eles fazem o censo) despenca ano a ano, há 6 anos.

Novos sábios chamados e outros culpados começaram a surgir. Pesticidas, Fertilizantes químicos, Ar rico em tudo, menos de nitrogênio e oxigênio aliado à extração maciça de minerais (parte deles, transportado para que solos sejam mais produtivos) geram uma arma de destruição em massa delas.

Você pode se perguntar. E eu com isto? Mel engorda. Eu fui picado uma vez. Morram todas! “Antes elas do que eu!” Você poderia argumentar. O problema é que a frase é um pouco diferente: “Antes elas, DEPOIS eu”. Sim, os sábios, até os do Hemisfério Norte financiados por políticos, dizem que o sumiço delas não só é consequência de uma bomba química, mas que também tem ( e terá ainda mais) reflexos na produção de alimentos.

A falta delas fará o preço da comida subir ainda mais. A redução nas colônias, diminui sensivelmente as polinização, a riqueza vegetal, desequilibra a população de insetos e aumenta a propagação das pragas. Que muito sabiamente serão combatidas como? Com mais bombas químicas, etc. Apagaremos o incêndio com mais fogo.

Não só da comida, da água também. Espera aí? Tudo por causa delas? Sim. A redução no índice de polinização já reduziu em 3% a diversidade em áreas florestais vizinhas às de produção agrícola. Em algumas espécies, a redução é maior do que 15%. Menos riqueza, pior ciclo de regeneração florestal, menos água.

Você deve pensar que estou viajando. Talvez tenha me convertido a uma seita neo-vegetariana que só come hóstia de trigo orgânico nativo dos montes Urais e colhido por monges tibetanos cegos. Não! Estas informações eu tirei do recente relatório do UNEP, a agência da ONU para meio-ambiente, e elas têm a assinatura de muitos sábios, inclusive os do Hemisfério Norte financiados por políticos.

Para quem gosta de dizer que tudo pode ser indicador econômico, podemos ter que inserir um índice de colméias na nossa próxima contagem de IDH. Quem sabe os antigos estavam certos, o silêncio delas é um aviso dos céus.

Para ver o relatório todo:












domingo, 22 de agosto de 2010

O SANEAMENTO QUE VOCÊ NÃO TEM E NÃO SABIA.... (PNS2008)

Em um cenário onde tudo é apenas um argumento, não há informação. 

Pesquisa é como adolescente, só revela o que é no bando :-). A Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) 2008 não é diferente. Mas, ficou muito difícil (talvez tenha sido sempre) conseguir informação da imprensa. Principalmente em época de eleições, quando a política vira assunto de torcida organizada. Quando a lógica do discurso de Cristo é invertida: quem não está conosco, é contra nós.

Jornais, sites, etc foram unanimes. Uns na linha do “nunca na história deste país” ressaltaram os avanços dos últimos 8 anos. Alias, todo o material de imprensa do IBGE foi feito com esta agenda. Outros jornais, sites e principalmente etcéteras atacaram o colossal hiato nas condições de saneamento básico (água, esgoto e coleta de resíduos).

A PNSB se enfoca nos municípios, não na população. Assim, cada município é tratado como uma unidade. Pode ser São Paulo e seus 11milhões ou Alemara São com seus 36999 (desde que meu amigo Alcimar saiu de lá, a cidade não recuperou sua força demográfica:->). Por sua natureza, a PNSB usa muitos dados auto-declaratórios das prefeituras. Pode ser minha falta de fé na humanidade, mas eu não confio cegamente neste tipo de sistema. O Censo 2010 trará uma forma de validar alguns dos dados da PNSB2008.

Dito isto, vamos à pesquisa. Para saber que saneamento básico é uma área na qual o Brasil é muito mal, não é necessário ler a PNSB 2008. Chega-se ao cúmulo de até esboçar uma democracia de falta de saneamento no Brasil  Até 30% dos não-pobres também carecem de serviços adequados neste ponto.

Junto com a série histórica, a pesquisa de 2008 revela:
 
1. Cobertura de saneamento cresceu até em ritmo de crescimento. Mas, principalmente na questão de fornecimento de água.
2. Rede de esgoto adequada é minoria no Brasil,
3. Tratamento adequado de efluentes é tão raro que pode ser manchete de jornal
4. Coleta de lixo até que melhorou, mas destino adequado do lixo é mais raro do que gol do Goiás neste brasileirão de 2010 :-)
Resumão:
 
1. No Brasil, as ações de saneamento têm mirado tirar o lixo e o esgoto de perto das pessoas.
2. O aspecto ecológico, que gera conseqüências enormes, mas não tão óbvias e imediatas para saúde e disponibilidade de recursos hídricos, não é prioridade.
3. Não há análise de custo/benefício do atual modelo baseado em:
   a. grandes obras,
   b. privatização/”corporitização” de serviços de fornecimento de água/esgoto,
    c. aterros sanitários e “transporte” de resíduos ao invés de manejo.

Analisar os dados de saneamento somente a partir da matriz de serviços e/ou direitos é desprezar a visão “ecológica”. Não no sentido tradicional de meio-ambiente, mas no sentido de todo. A falta de um posto de saúde adequado em São Mateus, não afeta a qualidade da oferta de saúde do Albert Einstein. Mas, a falta de saneamento sim. Os não-pobres têm condições de seguir práticas compensatórias, mas não podem fugir do impacto. Esta característica "ecológica" é um desafio para uma mediçao adequada. Indicadores de cobertura de serviços são insuficiente.
 
A PNSB 2008 não mostra que metade do país não tem saneamento. Revela que o Brasil todo não o tem. Continuar desperdiçando água e matérias-primas/energia tem um custo exponencial que, em última análise será pago por todos. Os dados sobre: erosão, enchentes, deslizamentos, etc  dão uma idéia de alguns custos.
Entender saneamento como meio-ambiente (e não somente como serviços) é a única maneira de fazê-lo urgente.
 
Alguns outros “fatos”
 
  1. Entre 2000 e 2008, o percentual de municípios brasileiros que tinham rede geral de abastecimento de água em pelo menos um distrito aumentou de 97,9% para 99,4%; Mas quase 30% da população não têm acesso à fornecimento regular/seguro de água.
  2. O manejo dos resíduos sólidos (que inclui coleta e destinação final do lixo e limpeza pública) passou a existir em todos os municípios em 2008, mas não atinge 65% da população.
  3. Os serviços de manejo de águas pluviais (drenagem urbana), que existiam em 78,6% dos municípios em 2000, chegaram a 94,5% em 2008.
  4. O serviço de saneamento que não chegou próximo à totalidade de municípios foi a coleta de esgoto por rede geral, que estava presente em 52,2% dos municípios em 2000 e passou a 55,2% em 2008. (embora, quase 70% da população é por ele servida)
  5. Nos municípios em que o serviço existia, houve, no mesmo período, um aumento dos que registraram ampliação ou melhoria no sistema de esgotamento, de 58% para 79,9% do total, e dos domicílios atendidos, de 33,5% para 44%.
  6. Em 2008, 68,8% do esgoto coletado era tratado, com acentuadas diferenças regionais nesse percentual, que alcançou 78,4% dos municípios no estado de São Paulo e 1,4% no Maranhão.
  7. O percentual de municípios que destinavam seus resíduos a vazadouros a céu aberto caiu de 72,3% para 50,8%. Mas, há uma estimativa de que quase 2/3 de todo o volume de resíduos é apenas escondida.
  8. A qualidade, regularidade e custo dos serviços de saneamento são inadequados para 63% da população brasileira.
 

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pnsb2008/PNSB_2008.pdf
 
 
O mote deste blog é: quem vai fundo, aproveita mais , por isto leia toda a PNSB2008: