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quinta-feira, 27 de março de 2014

CUIDADO: OS GRÁFICOS A SEGUIR PROVOCAM ASSASSINATOS, ESTUPROS, SEGREGAÇÃO, ETC.




Gráficos abomináveis,  que mostram que a violência contra mulheres (e homossexuais) é a manifestação tópica de preconceitos e conceitos dos mais distorcidos, inumanos.
Pesquisa IPEA de Percepçao Social, entrevistou 3810 pessoas, em uma amostragem com menor margem de erro que das principais enquetes de intenção de voto.
É ver, horrorizar-se e pensar: Como mudar isto?

O estudo todo














quarta-feira, 5 de março de 2014

As Notícias da Morte do Movimento Popular são um pouco Exageradas



Ciência é demolidora de consensos. Boa ciência serve para desdizer o que o senso comum, a timeline do facebook e a torcida do flamengo pensam ser verdade. E ciência da boa tem feito o mexicano abrasileirado, Gurza Lavalle (CEM, FFLCH-USP), brilhante herdeiro do tema de participação e movimentos sociais, na minha querida FFLCH.


Nos últimos 30 anos, os movimentos sociais, principalmente os da América Latina, foram muito estudados. Geralmente são identificados como atores essenciais nos processos de democratização. Seu desenvolvimento posterior à volta das eleições no continente, também é visto como uma evidência (causa ou reflexo, dependendo do analista) de uma suposta decadência democrática ou de uma “pós-democratização”, na qual a ação política se tornaria somente instrumental, neo-clientelista ou de "consumismo de bens públicos".

E 5 de cada 4 pesquisadores :-), parece identificar que, a partir dos anos 1990, houve uma mudança da sociedade civil e que ela se deu de forma substitutiva – isto é, com certos tipos de atores tomando o lugar de outros. Isso teria culminado, a partir de meados dos 90, numa preponderância das organizações não governamentais (ONGs), deslocamento que ficou conhecido como “onguização” dos movimentos sociais.

Associados à "Onguização", a maioria dos analistas identifica uma decadência (mais forte neste século) na capacidade de articulação e protagonismo politico dos movimentos. Tornou-se comum um “blues” de quando os movimentos populares eram ativos e fortes. Igual aos rubro-negros saudosos do time de Zico-Júnior :-) A tônica comum nas análises segue o consenso de que os movimentos populares, formados pelos próprios interessados nas demandas de mudança, teriam cedido espaço para organizações que também defendem mudanças, mas em nome de grupos que não são seus membros constituintes (Advocacy, na terminologia das ciências sociais). Essas ações supostamente teriam gerado uma despolitização da sociedade civil.

A pesquisa de Lavalle e equipe desmentem a tese da "Onguização".  Ele não entra no debate do que é ONG (este nome genérico, quase uma ficção linguística que coloca no mesmo saco gatos tão distintos quanto o Hospital Albert Einstein, o Asilo  Kardecista, a Consultoria disfarçada de ONG e a Associação dos Colecionadores de Carrinhos de Rolimã). Porém empresta da literatura tradicional a ideia da evolução dos atores sociais em  ondas distintas.  A 1ª onda seria a das organizações tradicionais, como as entidades assistenciais ou as associações de bairro (criadas em razão de demandas sociais de segmentos amplos da população, maiormente durante a vigência da ditadura). A 2ª onda, na qual as costumam ser agrupadas as organizações denominadas de ONGs e que, por sua vez deram origem às entidades articuladoras, aquelas que trabalham para outras organizações, e não para indivíduos, segmentos da população ou movimentos localizados).

A pesquisa utiliza como aproximação aos “movimentos sociais” são organizações populares, “entidades cuja estratégia de atuação distintiva é a mobilização popular”, como o Movimento de Moradia do Centro, a Unificação de Lutas de Cortiços e, numa escala bem maior, o Movimento dos Sem-Terra. Estas, na rede, estão em pé de igualdade com as ONGs e as articuladoras. Numa posição de “centralidade intermediária” estão as pastorais, os fóruns e as associações assistenciais. Finalmente, em condição periférica, estão organizações de corte tradicional, como as associações de bairro e comunitárias.

Em grande parte, a novidade da pesquisa se deve à aplicação de novas ferramentas, baseadas na análise de redes. A "Network Analysis" uma abordagem usada amplamente em Ecologia, Epidemiologia e Linguística. Ela detecta padrões de difusão, permite identificar estruturas indiretas e conexões. Assim, Lavalle e equipe começaram a superar as visões baseadas em abstrações ou em modelos teóricos mais ortodoxos do que o sistema de defesa de técnico gaúcho..

O método usado pela equipe para verificar a estrutura de vínculos entre as organizações foi o "bola de neve". Neste, cada entidade foi chamada a citar cinco outras organizações importantes no andamento do trabalho da entidade entrevistada. Adicionou-se a esta lista declaratória, as relações institucionais e financeiras.  Na cidade de São Paulo foram ouvidos representantes de 202 associações civis (as do tipo da primeira onda, excluindo portanto as "ONG's"), que geraram um total de 827 atores diferentes, 1.368 vínculos e 549.081 relações potenciais.

Quando analisadas as conexões, foi possível avaliar a influência das associações, tanto na sociedade civil quanto em relação a outros atores sociais e políticos. Esse resultado foi obtido por um conjunto de medidas que computam os vínculos no interior da rede, não só aqueles diretos ou de vizinhança, mas, sobretudo, aqueles indiretos ou entre uma organização e os vínculos de outra organização com a qual a primeira interage e aos quais não tem acesso direto. Assim, foi possível investigar as posições objetivas dos atores dentro das redes, assim como as estruturas de vínculos que condensam e condicionam as lógicas de sua atuação.

Essa rede permitiu identificar  as conexões políticas das associações. A sociedade civil se modernizou, diversificou-se e se especializou funcionalmente, tornando as ecologias organizacionais da região mais complexas, sem que essa complexidade implique a substituição de um tipo de ator por outro.  Em uma análise comparativa as Associações civis são mais conectadas do que as chamadas "ONG's".  vitalidade dos movimentos sociais, semelhante à das ONGs. As associações civis, formadas pelos próprios interessados, mostram conexões ativas tanto com atores públicos-governamentais/não-governamentais e privados. 

Assim, os estudos de Lavalle  contradizem a tese senso comum da “onguização”. Parafraseando Mark Twain, ao escrever a um jornal que havia noticiado sua morte: As Notícias da Morte do Movimento Popular são um pouco Exageradas :-) Todos os dados obtidos contrariam diagnósticos dos "viúvos dos anos 80", que insistiam de que a sociedade civil atual seria formada de organizações orientadas principalmente para a prestação de serviços e a trabalhar com assuntos públicos de modo desenraizado ou pouco voltado para a população de baixa renda.

Lavalle conclui que “as organizações civis passaram a desempenhar novas funções de intermediação, ora em instituições participativas como representantes de determinados grupos, ora gerindo uma parte da política, ora como receptoras de recursos públicos para a execução de projetos”. Absorver novos papeis não representou a perda dos anteriores, mas a sua transmutação. Assim, “as redes de organizações civis examinadas são produto de bolas de neve iniciadas em áreas populares da cidade e por isso nos informam a respeito da capacidade de intermediação das organizações civis em relação a esses grupos sociais..”

Outros estudos confirmam as conclusões deste trabalho, como os de Paulo Velho (UFES) e Lígia Lüchmann (UFSC) para quem “a sociedade civil é hoje funcionalmente mais diversificada do que costumava ser, com atores tradicionais coexistindo com os novos”. Assim, estudos como o de Lavalle vêm corroborar a ideia de que tendências mais visíveis não podem ser tomadas como hegemônicas e de que a sociedade tende a ser muitas coisas ao mesmo tempo. As classificações lineares ou evolucionistas servem para dar tranquilidade intelectual, ideia de controle e entendimento; mas não se verificam no tecido social. Para fora das portas da Universidade, o mundo segue extrapolando a teoria. 

Ao assumir a heterogeneidade e complexidade das organizações civis, há implicações não só para a análise, mas para a ação política e pública. Por exemplo, em relação à regulação sobre o terceiro setor. A heterogeneidade demanda um marco de análise menos engessado e, em tempos de definição do Marco Civil, pede leis menos restritivas, que não pretendam uniformizar; mas se concentrem em oferecer segurança jurídica.

Afinal,  já está cientificamente provado que a torcida do Flamengo está errada :-); logo a realidade não segue a opinião da maioria. Não concorda? Consulte sua timeline... :-)


Para ir além
  1. GURZA LAVALLE, A. e Bueno, N. S. Waves of change within civil society in Latin America: Mexico City and Sao Paulo. Politics & Society. v. 39, p. 415-50, 2011
  2. Mobilidade dos Movimentos Sociais, FAPESP, Fev 2014. MFerrari 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

MÓRMONS E NEGÓCIOS: A FÉ DOS SOCIÓLOGOS NAS CORRELAÇÕES

Não é que há sociólogo que ainda crê em causa-e-efeito. Nem corintiano tem tanta fé :>

É curioso como, depois de 150 anos de teoria sociológica, ainda não se admita na causalidade múltipla e complexa. A história e os dados têm mostrado que não há fatores explicativos mágicos, explicações pivotais e centroavantes que não cavem pênaltis. Transformamos pistas em conclusões.


Parece que Weber segue como desculpa para a preguiça analítica :-)



The Mormon way of business
(The Economist)

The Mormons have produced a striking number of successful businesspeople
JOKES about sacred underpants have reached epidemic proportions, thanks to Mitt Romney’s presidential bid and the musical masterpiece by Matt Stone and Trey Parker, “The Book of Mormon”. But the Church of Jesus Christ of Latter-Day Saints, to give it its full name, is fighting back. A huge advertising campaign features ordinary people doing ordinary things—a white man sporting a beard, a black man sporting a moustache and a young skateboarder flying through the air—with the tag line: “I’m a Mormon.”
The snag is, not everyone will buy the idea that Mormons are just like the rest of us. They don’t get drunk. They have large families, stable marriages and a three-month supply of food in the larder in case of Armageddon. They are usually clean-cut and neatly dressed (the facial hair in the “I’m a Mormon” ads is thankfully atypical). And they have a passion for business.

Less than 2% of Americans are Mormons, yet their commercial prominence belies their numbers. Mitt Romney founded Bain Capital, a private-equity powerhouse. Jon Huntsman senior (the father of Mr Romney’s rival for the Republican crown) founded Huntsman Corporation, an $11 billion chemicals giant. David Neeleman has founded two cut-price airlines: JetBlue in America and Azul in Brazil. Ralph Atkin started a third: SkyWest Airlines. Eric Varvel is the boss of Credit Suisse’s investment bank, Harris Simmons heads Zions Bancorporation, a more local bank, and Allan O’Bryant runs the Japanese arm of Reinsurance Group of America. J.W. Marriott runs the hotel chain his father created. Had Max Weber lived a century later, he might have made sweeping generalisations about the “Mormon work ethic”.

Mormons have constructed a huge pro-business infrastructure. The Marriott School at Brigham Young University provides among the best value for money of any business school in America, charging Mormons just $10,000 a year, a fifth of the fees at the leading schools. Mormons are such a force at Harvard Business School that people joke about being dominated by the three “Ms” (the other two are McKinsey and the military). Clayton Christensen of Harvard is one of the world’s leading management thinkers. Stephen Covey, the author of “The 7 Habits of Highly Effective People”, is one of its leading self-help gurus.

Small wonder young Mormons keep pouring into business. Provo, the home of Brigham Young University, is a high-tech hub, the home of Novell and hundreds of other computer and graphic-design companies. Big investment banks have added the Marriott School to Harvard and Wharton as one of their favourite hunting grounds. Goldman Sachs has opened one of its largest offices outside New York in Salt Lake City. Jeremy Andrus, a young chief executive, has recently taken Skullcandy, a headphone company, public for $125m. Household income in Utah, where Mormons predominate, is above the American average.

What explains the Mormons’ success? Clean living probably helps: alcohol clouds judgment and lubricates bad deals. A history of persecution may breed self-reliance: 19th-century Mormons trekked westwards across plains and mountains to escape the kind of bigots who murdered their founder, Joseph Smith, in 1844. Modern Mormons have something in common with other industrious minorities, such as Parsees, who are prominent in corporate India, the overseas Chinese and Jews. But some of the answer may lie in the faith itself. Mormonism—the only global religion to have been invented in the past 200 years—is in some ways more business-friendly than its more ancient rivals.

Mormons revere organisation. They believe that God created the world out of chaos, rather than out of nothing. They also believe that men and women are capable of “eternal progression” towards “Godhood”, so long as they conduct themselves like busy little bees. The church is probably the best-organised in the world and certainly the most cost-effective. The president and his 12 advisers sit at the top like the board of a multinational. Below them, the church depends on a throng of lay volunteers. Church members begin to perform in public at the age of three. They become “deacons” at 12 and are given more demanding jobs as they grow older. The faithful are expected to give 10% of their pre-tax income to the church. No one knows how much money it has, but unofficial estimates are in the billions.

The fiercest crucible for young Mormons is the mission. Mormon men serve as missionaries for two years when they turn 19; women for 18 months when they turn 21. They have no choice over where they go and often have to learn a foreign language. They are cut off from their families (they are allowed only two phone calls home a year) and assigned a “companion” to keep them on the straight and narrow. They are expected to proselytise for ten hours a day, six days a week. Few other groups experience anything as demanding at a similar age. One exception is young Israelis, who spend gruelling years in the military, and who also have an outstanding record as entrepreneurs.
Missionary work provides young Mormons with a fluency in foreign languages that is rare in America. Mr Neeleman, for example, was born in Brazil and returned there as a youngster to do missionary work. His feel for the local culture, and fluent Portuguese, make it easier for him to adapt what he learned about running airlines in America to the Brazilian market.

Missionary work also teaches young Mormons to persevere despite harsh odds. They must sell a product for which there is almost no demand: an idiosyncratic version of Christianity that teaches that Christ made a post-resurrection visit to the United States, that the Garden of Eden may have been in Missouri and that drinking alcohol is a sin. After that, selling airline seats or life insurance must be a doddle.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

NÃO TEM PREÇO





1. Ação de desocupação da área do “Pinheirinho”, infraestrutura, mobilização aos policiais e outros servidores públicos, aluguel das máquinas para demolição das casas (Ainda há PMs e equipes da prefeitura na área): R$ 7 milhões.

2. Abrigo aos desalojados: R$ 3,5 milhões, até dia 31/1.

 

3. ‘Aluguel social’ até que o conjunto habitacional prometido ficar pronto, (R$ 500/mensais por 18 meses), se não atrasar: R$ 9 milhões.

4. Construção das moradias para os desabrigados: R$ 88 milhões.

5. Custo total da Operação: R$ 107,5 milhões. R$ 103 milhões dos cofres públicos (a massa falida ilibado empresário Naji Nahas, o mesmo dos principais escândalos do Governo Sarney reembolsou R$4milhões pela desocupação)

6. Indenizações que o Estado terá que pagar, caso as ações movidas sejam bem sucedidas: sem cálculo.

7. Valor de mercado do terreno ocupado (avaliado judicialmente em R$180milhoes): R$110 milhões.

8. Dívidas do terreno com a prefeitura, INSS e outros órgãos públicos: R$41milhões (Embora, a prefeitura inspirada somente pelo interesse social com certeza, tenha dado uma anistia nos juros e reduzido em 70% o seu crédito)

9. Valor líquido do terreno: R$69 milhões

10. Projeto habitacional no próprio terreno para as famílias: R$8 milhões (os moradores haviam concordado em pagar, entre R$ 3 e R$6 mil, pelos terrenos que ocupavam).

11. 3 calculadoras chinesas para que: o Prefeito de SJC, o Governador, e o Judiciário possam fazer as contas acima: R$12,00.

12. O contribuinte pagar R$103,5 milhões por uma remoção violenta, que expos mais de 150 crianças a um “inferno”, mal planejada, que “fura a fila” do programa habitacional (e gera tensões) e sem interesse público nenhum; enquanto a solução pacífica custaria R$77milhões: NÃO TEM PREÇO.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

UM PASTOR DO SÉC.XVIII, MINHA ESPOSA & A MATEMÁTICA DA MUDANÇA



Jonh Maynard Keynes (que para os economistas brasileiros representa mais ou menos o que o “Apóstolo Paulo” significa para a Igreja) ao ser questionado por um repórter se não estaria se contradizendo em relação ao que havia escrito anos antes, rebateu: “Quando os fatos mudam, eu mudo minha opinião, e o senhor o que faz?


O que provoca esta mudança? É possível provocar a mudança e controlar seu rumo? Como? 

Eu, por exemplo, há duas décadas tento sem sucesso mudar as idéias de minha esposa. Por isto, se você é casado, pode não acreditar, mas as pessoas mudam de opinião:-) 

Há cotidianos exemplos bem sucedidos nas quais o marketing (inclusive o religioso) muda idéias, faz as pessoas acreditarem que precisam de algo para serem felizes, crerem que o que era out agora é in e etc. Pagarem mais por uma marca que não entrega um produto diferente de seu concorrente mais barato. Trocarem suas ideias políticas por outras para não terem que bloquear todos os amigos nas redes sociais, etc.

Mas, mesmo as bem sucedidas e premiadas mentes do marketing reconhecem que a mudança é ciência imprecisa, de alto risco. Para cada Leão de Ouro de Cannes há centenas de fracassos. 

O estudo sobre a mudança é uma questão antiga. Filosofia e Sociologia (e Política) já tratam dela há séculos. No caso da Filosofia há milênios. Mais recentemente, a Administração passou a se dedicar a estudar o problema. Para turbinar contas bancárias de consultores e editoras, nas últimas décadas, criou-se até um nome para a área: Teoria da Mudança. E seu filhote:  “Gerenciamento da Mudança” que, caso venha em inglês "Change Management" fica mais caro.

Um excelente estudo sobre os padrões de mudança está em “The Theory that would not die” (Uma teoria que não morreria), de Sharon Bertsch McGrayne, da Yale University Press

McGrayne trata do Teorema de Bayes, cujo nome é uma homenagem a um matemático e pastor presbiteriano do século 18, isto é, um cara muito parecido com um pastor presbiteriano no séc. 21 :-)  OBS: É uma ironia que um pastor presbiteriano baseie uma teoria da mudança já que nós presbiterianos somos conhecidos, junto com os torcedores do América-RJ e os PSTU, como um dos grupos mais imutáveis da História :-)




Voltando a Bayes, McGrayne trata das seguintes perguntas essenciais: 

Como devemos modificar nossas crenças à luz de informações que recebemos? 

Devemos nos ater a conceitos, mesmo depois eles se tornaram insustentáveis? Ou abandoná-los muito rapidamente na primeira sombra de dúvida?

Ela responde a estas questões com a ajuda do Pastor Presbiteriano. 

Na sua essência, o teorema de Bayes trabalha com uma inversão engenhosa de pensamento: Se você quiser avaliar a força de sua hipótese, dadas as evidências, você também deve avaliar a força das evidências dada a sua hipótese. 

Bayes foi o primeiro cara a estruturar a ideia de que a mudança concreta é impulsionada pela realidade e não o contrário como querem fazer crer os gurus modernos da mudança, ao venderem os mitos dos líderes messiânicos que transformam tudo por sua vontade e gráficos de PowerPoint.


O teorema tem uma longa história e surpreendentemente complicada, narrada em detalhes no livro. Desde a formulação do matemático Richard Price, passando pelo ilustre matemático francês Laplace, que estendeu a aplicabilidade do teorema. O livro conta que Bayes, como as camisas listradas, entrou e saiu de moda em um campo científico após o outro. No século passado, tornou-se um ponto de discórdia entre grupos rivais de matemáticos, antes de desfrutar de um renascimento nos últimos anos.

O teorema em si é bem simples. 

  1. Parta de uma hipótese provisória sobre o mundo (e qual hipótese não é provisória?), atribua a ela uma probabilidade inicial (“probabilidade anterior” ou simplesmente, “anterior”). 
  2. Depois, colete evidências potencialmente relevantes e use o teorema para recalcular a probabilidade da hipótese à luz da nova evidência. Esta probabilidade revista é chamada a “probabilidade posterior” (ou simplesmente “posterior”). 
  3. Ao fim o teorema de Bayes estabelece que: “a probabilidade posterior de uma hipótese é igual ao produto de (A) a probabilidade prévia da hipótese e (E) a probabilidade condicional de a evidência dada à hipótese, dividido por (N) a probabilidade de novas provas.”

P= A*E/N


A autora conta um exemplo concreto. Suponha que você tenham uma moeda de 0,50 e pode trocá-la por outra. Há três moedas disponíveis. Mas, duas delas verdadeiras e uma falsa.  Você sabe que a falsificação sempre “dá cara”, cai com mesma face para cima.
Se você escolher aleatoriamente uma das três moedas, a probabilidade de que ela seja a falsa é de 1 em 3. Certo? Essa é a probabilidade anterior (A) da hipótese de que a moeda seja falsa. Agora, suponhamos que depois de pegar a moeda, você lança três vezes a moeda escolhida dá “cara” todas as vezes. Isto é, você fica fortemente desconfiado de que escolheu justamente a moeda falsa. Você quer saber agora a probabilidade posterior (P) de escolher uma falsificação? A resposta, usando teorema de Bayes (cálculo misericordiosamente omitido:-), é de 4 em 5. Você, portanto, reviu sua estimativa de probabilidade de pegar uma moeda falsificada de 1 em cada 3 para 4 em cada 5. Noutras palavras, o que era um risco pequeno (pegar a moeda falsa) passou a significar uma altíssima probabilidade. A experiência mudou sua idéia. Muito provavlemnte, você ficaria com sua moedinha de 0,50 :-)

Bayes é talvez o primeiro matemático moderno a trabalhar seriamente com o conceito do não-sabido, do incerto, do que nunca (talvez) seja esclarecido, nesta categoria estão a matérias escura do universo, o que minha esposa guarda na bolsa e o que acontece com as tampinhas de caneta Bic. 

Dois séculos depois, embora os Economistas sigam ignorando o que ignoram :-) , o conceito de Incerteza é essencial na Física e Matemática.

Em face da incerteza, o raciocínio de Bayes insere três perguntas:

1. O quanto estou confiante na verdade da minha crença inicial?

2. Partindo do pressuposto de que a minha crença original é verdade, o quanto estou confiante de que a nova evidência é precisa?

3. E, se eu não partir do pressuposto de que minha crença original é verdade (se isto for indiferente), o quanto estou confiante de que a nova evidência é precisa? 

Esta 3ª pergunta é chave porque ver uma evidência de algo que você previamente acredita é mais fácil. Vide um torcedor que sempre tem evidências de que o time dele foi roubado pelo juiz. Um proto-Bayesiano, o também matemático David Hume, sublinhou a importância de considerar a probabilidade de provar, quando formulou seu famoso axioma: “não se deve confiar na suposta evidência de um milagre, ao menos que seja ainda mais miraculoso crer que o milagre seja falso”.

O raciocínio Bayesiano ajudou a aproximar pontos de das evidências. Ajudou teorias a se sincronizarem com o universo. Assim, a formulação da mudança em Bayes é a crença reformulada pela experiência.

Hoje é comum dizer que as pessoas resistem às mudanças porque não a entendem. Usando Bayes, podemos fazer outro diagnóstico. Ser refratário à mudança pode ser porque simplesmente as evidências não apoiam a mudança que se quer alavancar. Em resumo, quem garante que a hipótese do guru (ou do chefe) esteja certa?

Poderíamos resumir o que a Teoria de Bayes nos ensina hoje em uma frase: Duvide, Reexamine as evidência, mude de opinião.

Bai de uei, ao rever o Teorema de Bayes, descobri porque não consigo mudar a ideia da minha esposa. Ela sabe, pelas evidências adquiridas em duas décadas, que o marido dela não diz (nem escreve) coisa com coisa.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

CONTRADIÇÃO? NÃO. PARADOXO



Quando alguém lhe pegar em uma contradição, faça como os cientistas. Não admita. Diga que isto é um Paradoxo.
Assim explicou-se a recente pesquisa que constatou que os “Países mais 'felizes' têm maiores taxas de suicídio”. O estudo da University of Warwick (UK) e o Hamilton College (Nova York) está disponível no “Journal of Economic Behavior & Organization”.

O que já tinha sido constatado em países nórdicos foi verificado em várias nações (entre elas, Canadá, Estados Unidos, Islândia, Irlanda e Suíça). Países com altos índices de felicidade relativamente altos e, também, altos índices de suicídio. Muitos países com altos índices de felicidade felizes têm índices de suicídio altos.

Os pesquisadores também utilizaram os parâmetros do estudo para comparar distintos estados nos EUA. Assim, esperavam minimizar os fatores de diferenças culturais e comprovar os dados comparativos entre países. Conseguiram. Os resultados observados nas comparações mais amplas entre os países se repetiram nas comparações entre diferentes Estados americanos. Estados onde a população se declarou mais satisfeita com a vida apresentaram maior tendência a registrar índices mais altos de suicídio do que aqueles com médias menores de satisfação com a vida.

O Havaí, por exemplo, ficou em segundo lugar no ranking ajustado de satisfação com a vida, mas possui o quinto maior índice de suicídios no país. Nova Jersey, por outro lado, ocupa a posição 47 no ranking de satisfação com a vida e tem um dos índices mais baixos de suicídio - coincidentemente, ocupa a posição 47 na lista. Isto prova o quê, surf deprime? Conheço gente que preferiria se matar no Hawai a viver até os 100 em New Jersey, mas tudo bem...

No estudo, os especialistas (e há especialistas em tudo, eu sou especialista em especialistas) utilizaram sua imaginação acadêmica para listar possíveis causas. Possíveis já que este é o tipo de pesquisa com baixíssima chance de ser comprovada. Há coisa mais chata do que um dado que cisma em teimar com sua teoria?

O estudo sugere que a explicação para o fenômeno estaria na tendência dos seres humanos de se compararem uns aos outros. Sentir-se infeliz em um ambiente onde a maioria das pessoas se sente feliz aumentaria a sensação de infelicidade e a probabilidade de que a pessoa infeliz recorra ao suicídio.

A isto chamam de paradoxo da felicidade, isto é, quanto mais feliz é um entorno, mais obrigado a ser feliz as pessoas se sentem. E, ao fim, ficam infelizes com tanta felicidade. Pessoas descontentes em um lugar feliz podem sentir-se particularmente maltratadas pela vida. A infelicidade seria mais tolerável em um ambiente onde todos estão infelizes. A correlação é ainda mais evidente entre mulheres. Parece até a frase (machista) de um escritor brasileiro: "uma mulher suporta tudo, menos 3 meses de felicidade".

Se você aplicasse a lógica ao extremo, você deveria procurar um grupo bem infeliz e se juntar a ele. Seria uma pessoa bem feliz asssim. rsrsrsrs O curioso no estudo é que ele não questiona o que parece ser o mais evidente: a própria validade dos dados sobre felicidade com os quais eles trabalham. 'Não há evidências de que estas pesquisas meçam algo além da reação a uma pergunta. 

O anglo-saxão costuma considerar a felicidade como a satisfação de certos fatores concretos: educação, renda, lazer, saúde. Você imagina um dinamarquês, abrindo o coração com um pesquisador de rua e dizendo: Ainda bem que você perguntou, eu sou mesmo muito infeliz. Quer ser meu amigo? Já nos países latinos e africanos onde a pesquisa é feita, o termo é constantemente interpretado como referente a um estado de ânimo. Nestes países, a felicidade é interpretada mais como bem-estar emocional. Combine isto com o fato de que estas culturas são mais tolerantes com relação à expressão de sentimentos em público. Isto talvez explique porque as pesquisas de felicidade variam mais nestes países. Por fim, os países asiáticos onde a pesquisa é feita parecem interpretar a pergunta como relativa ao seu entorno. Onde há paz na família e vizinhos, há felicidade. Logo, não é surpresa que estes países sempre aparecem no topo do ranking feliz. 

"O que te faz feliz?" fica bem em slogan de supermercado, mas não se encaixa nos modelos de pesquisa comportamental usados nas 2 maiores pesquisas sobre felicidade (IFB e CSH). Antes de explicar comparativamente, estas pesquisas deveriam ser usadas para analisar o que escondem.

No meu caso, o que me deixa feliz é não ler estudos assim. Quer ser meu amigo? :-)
.

terça-feira, 26 de abril de 2011

A MÉDIA SOU EU

Sociologia é como um vício. Não existe cura, há abstinência. Nosso ex-presidente e eterno “príncipe-pavão-eu-sou-demais-e-fiz-sorbonne” provocou a polêmica que queria ao escrever para seu partido esquecer povão e se concentrar na classe média. Foi uma recaída do sociólogo em abstinência para que o político sobreviva. Na verdade, FHC só fez ler o já clássico artigo do meu brilhante colega André Singer (neste blog...), que mostra a emergência de uma nova classe média que dá sustentação ao PT.

Mais do que uma conversa de uspianos, o artigo toca em um ponto interessante. Na cultura brasileira falar ou do povão ou dos ricos é místico, porque todo mundo aqui se acha classe média. Inspirado no artigo, José Roberto de Toledo escreveu um interessante artigo no Estadão. José Roberto mostra que ler a leitura que fazemos dos dados não é tarefa de especialistas, é olhar o próprio espelho. Alias, o Rei está Nu e tem barriga ;-). Abaixo o artigo:




“O rico não sabe que é rico. Um em cada cinco pobres não se acha pobre. Ambos sofrem da síndrome de classe média.
Apenas 1% dos que estão no topo da pirâmide social brasileira se reconhece abastado. Praticamente dois terços desses que estão na mais alta faixa de renda dizem que são classe média. O resto não aceita tal régua e se diz "trabalhador".
A camada intermediária incha em toda pesquisa que pede para o entrevistado dizer qual sua classe. Não é preciso ir à Sorbonne para entender o porquê. Como não dá para calcular sua posição na escala social sem se comparar aos outros, seu lugar será sempre relativo. O mesmo 1,80 metro que garante a posição de pivô no time de basquete dos pigmeus, é insuficiente para ser armador na NBA.

Numa autoclassificação por renda, a maioria dos indivíduos olha para um lado e vê que há gente mais rica do que ele; olha para o outro e nota que há também mais pobres. Logo, seu lugar deve estar no meio.
Em pesquisa CNI/Ibope de 2008, 42% dos brasileiros se autoclassificam como classe média ("alta", "baixa" ou sem adjetivos) e 19% como classe trabalhadora/operária.
Ideologias à parte, os ditos trabalhadores/operários estão mais perto do extrato superior do que do terço que se considera na classe baixa/pobre. Comparando sua renda com a dos outros, pelo menos metade deles seria classe média.
Desde que a pesquisa foi feita, há quase três anos, mais pessoas emergiram economicamente. Mantido o crescimento do consumo, a classe média será ainda mais majoritária em 2014.
Como resultado, se um candidato for à TV e pedir o voto de quem é da classe média, ele terá boas chances de sair com mais eleitores do que inimigos. Há um inconveniente, porém: não será o único político fazendo esse apelo eleitoral.
PT e PSDB vêm buscando o voto da classe média há várias eleições. Descobriram que há diferentes classes nessa média: os emergentes, os decadentes e os estáveis; subdivididos em estudantes, estudados e sem estudo; em crentes, agnósticos e não praticantes; além de ricos, pobres e remediados.
Acertar o discurso para cada segmento é um problema, porque muitas vezes os interesses são contraditórios. Os ricos reclamam dos impostos altos, por exemplo, enquanto os pobres acham que eles são necessários para garantir saúde e educação. É natural: estes usam muito os serviços públicos, aqueles, pouco.
Os ricos têm dificuldades de se saberem ricos porque a dispersão da renda é maior na ponta mais afluente da escala. Proporcionalmente, a desigualdade é mais aguda entre os ricos do que entre os pobres.
Segundo a PNAD 2009, o rendimento do 1% mais rico é o triplo do que ganham os 4% do degrau imediatamente anterior. Ou seja: a não ser que seu nome seja Eike Batista, sempre haverá alguém ganhando muito mais do que você e será fácil de notar pelo modelo do carro, pelo tamanho da casa ou pela autonomia do jatinho.
Na frase entreouvida em um grupo de pesquisa qualitativa sobre a nova classe média: "Rico é quem tem lancha". Com barcos financiados em 48 prestações no cartão de crédito, já há quem diga que rico é quem tem vaga em marina.
Entre os ex-pobres, os signos da diferença social são mais prosaicos: um celular inteligente, uma conexão rápida à internet no computador de casa.
Como nota o pesquisador Maurício Moura, muitas novidades consumidas pelos emergentes implicam mais acesso à informação, o que os torna permeáveis, ou pelo menos acessíveis, ao discurso da oposição. Daí talvez Fernando Henrique Cardoso descartar "as massas carentes e pouco informadas".
Mas não basta ter acesso ao alvo. O discurso precisa acertar. Em propaganda recente, o PSDB reclama das filas nos aeroportos. São filas que incomodam o eleitor tradicional do partido, mas que foram formadas pelo afluxo de novos passageiros, os mesmos emergentes que os tucanos querem conquistar.
O PSDB tem mais um motivo para apurar o discurso. Dilma Rousseff está com aprovação superior ao seu porcentual de votos no 2.º turno de 2010. Logo, uma parcela dos eleitores de José Serra em 2010 aprova o governo da petista. Seriam eles de classe média? Podem não ser, mas acham que são.”

(José Roberto de Toledo)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

VIOLENCIA PREOCUPA MAIS AOS LATINOS DO QUE A POBREZA



A violência é a maior preocupação latino-americana segundo um estudo realizado no ano passado e divulgado nesta semana. Em entrevistas realizadas com 10.000 pessoas em 28 cidades de 18 países, a Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO) perguntou sobre democracia, confiança, medo e esperança.


67,5% dos entrevistados listam violência como sua maior preocupação.

Na área de confiança, o latino-americano continua crendo mais nos jornais de TV do que nos líderes religiosos (páreo duro :-)). Os brasileiros são os que mais declaram confiar no que a TV diz. Fé não se discute.

Todo o interessantíssimo estudo



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Que os Gringos Pensam de Nós


O IPEA divulgou a segunda medição do Monitor da Percepção Internacional do Brasil. De caráter eminentemente conjuntural, a pesquisa, qualitativa, busca sintetizar em três indicadores temáticos, cuja escala varia entre -100 (muito pessimista/desfavorável) e +100 (muito otimista/favorável), a avaliação de agentes internacionais – representações de governo (embaixadas e consulados), câmaras de comércio, organizações multilaterais, e empresas com controle estrangeiro – sobre aspectos econômicos, sociais e político-institucionais do Brasil. Fazem parte da amostra desta investigação 170 entidades.

Os resultados indicam uma avaliação moderadamente otimista ou favorável sobre o Brasil, uma vez que todos os indicadores temáticos apresentaram valores positivos.
 
Em relação à edição-piloto da pesquisa realizada em janeiro de 2010, verificou-se substancial elevação no indicador: de +36 para +59.

O contraponto negativo em relação à pesquisa anterior foi a piora nas expectativas inflacionárias. O índice relativo à inflação caiu de +71 para +21, o que aponta para o afastamento de uma posição muito otimista (inflação em cima da meta) para uma posição neutra (inflação pouco acima da meta, próxima a 5,5%). Os indicadores relativos às condições gerais de crédito e ao acesso da população a bens de consumo também apresentaram recuo em relação a janeiro.

Na área político-institucional, a pesquisa captou a percepção de um aumento da influência do Brasil na América Latina, assim como em instituições multilaterais. Todavia, em relação à pesquisa realizada em janeiro, observou-se recuo nestes indicadores, conforme pode-se depreender da tabela no verso desta página. Cabe salientar ainda que a pesquisa anterior foi realizada pouco após a conquista, pelo Brasil, do direito de sediar as Olimpíadas de 2016.

A condução da política econômica nos últimos 12 meses foi bem avaliada: o indicador apresentou até mesmo elevação sobre a pesquisa anterior (+59 contra +50). Para 44% dos respondentes, a condução da política econômica foi ligeiramente favorável ao crescimento econômico com estabilidade, enquanto para 38%, foi muito favorável.

Na temática social, a percepção dos agentes internacionais indicou uma tendência de redução moderada da pobreza e da desigualdade de renda. O aspecto negativo situou-se na percepção de aumento do nível de violência no país. Embora a resposta mais comum a esta questão tenha sido a de que não ocorreu variação no nível de violência (47% das respostas), para 41% dos respondentes houve um incremento moderado e, para 12%, a violência aumentou muito nos últimos 12 meses.