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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

DONA CIDA E O BOLSA-FAMÍLIA: A CRÍTICA DO BETO


No dia seguinte ao nosso 11/9, o massacre de 7X1, reencontrei Dona Cida, uma antiga vizinha de minha mãe, que não via há uma década ou mais, passeando no parque. Protocolarmente perguntei como ia. O pior aconteceu, ela respondeu. Disse que ia bem, mas reclamou do Imposto de Renda da pensão que recebe do marido, “o Major”, militar morto há mais de 20 anos. Disse que estava difícil manter empregada porque tem muitos vagabundos que recebem Bolsa-Família (BF) sustentados por ela,  etc. Já desejando outros 10 anos sem ver Dona Cida, mudei de assunto. Está muito triste com o vexame de ontem? Ela me disse: Que nada! Estou é feliz pelo Beto, meu chihuahua. Imagina o stress dele? A cada rojão por gol da seleção era um terror! Já via a hora que ele ficaria viciado em calmante.  Desde ontem, tudo em paz, lá em casa.

Sempre há uma perspectiva Beto de um tema. Inclusive o BF.  Em toda época eleitoral, “Donas Cidas” repetem papagaiamente os truísmos sobre o programa: “É esmola, é muleta, eu quem pago por isto, etc.”.

As “Donas Cidas” têm diversos tipos de argumentos contra o BF. Algumas (poucas o admitem publicamente) simplesmente não aceitam que um pobre possa se beneficiar. Outras têm argumentação mais sofisticada. Tem “Dona Cida” que diz que:
  1. O BF é esmola. Mesmo que os dados mostrem que 8 em cada 10 beneficiários trabalhem.
  2. O BF representa um gasto grande. Mesmo que os dados provem que o retorno é de 3X1 por $ publico gasto (retorno em impostos, maximização da eficiência de investimentos públicos, redução de demandas, geração de riquezas, etc.) e que o custo total corresponde a 6% da conta de juros.
  3.  O BF deveria ter uma porta de saída. Os candidatos da oposição são este tipo de “Dona Cida”, porque dizem que o BF não promove o desenvolvimento dos beneficiários; mesmo que já haja uma miríade de programas neste sentido, e 18% dos beneficiários a cada ano saiam do programa, por aumento de renda. Isto é, a tal porta de saída já existe e tem gente passando por ela. Embora, a porta de saída seja também de entrada. E novos por ela cheguem e outros, outrora saídos, por ela retornem.

Com esse nível de argumentos das “Donas Cidas”, é fácil entender porque o BF segue um sucesso inquestionável :-).

Arrisco a dizer que a fraqueza dos argumentos das “Donas Cidas” vêm porque constroem suas críticas a partir do ponto de vista de que beneficiários são os que recebem o benefício.

Por isto (eu, um defensor do programa, por acreditar que Assistência é Direito e porque não conhecer nada mais eficiente e viável na escala que o Brasil demanda), quero propor uma crítica sob a “perspectiva do Beto”, outro lado. Algo que a Dona Cida original entenderia.

A crítica se origina na pergunta: Se 8 em cada 10 beneficiários trabalha e se 6 em cada 10 tem um emprego formal, por que eles precisam de um programa de complementação de renda? 

A resposta simples é porque os salários pagos são muito baixos. Portanto, depois de 10 anos de uma implementação encorpada, com as mudanças na economia do país e no perfil dos beneficiários, s que os maiores beneficiários do BF hoje não são mais os inscritos no programa, mas os empregadores brasileiros.

O BF pode ser considerado um subsídio para o empregador brasileiro. Mais uma “Bolsa-Rico”, que complementa os já existentes benefícios sociais a não-pobres: Bolsa-Botox (incentivo fiscal para gastos com saúde privada, de qualquer tipo e sem limite); Bolsa-Cirque-Du-Soleil (incentivo fiscal para investimentos em produtos culturais caros e destinados a uma pequeníssima parcela da população), Bolsa-Carro Zero (incentivo IPI); Bolsa-Viuvinha (Pagamento de pensão vitalícia para viúvas de segundos matrimônios para servidores públicos federais, como a que deixou o “Major” do Dona Cida, ), Bolsa-Safena (isenção de Impostos para idosos, mesmo ricos, desde que tenham laudo de doença grave, mesmo que não fatal) o Bolsa-CBF (isenções, renegociações eternas de dívidas, etc.); Bolsa-Friboi (subsídios em empréstimos ao agronegócio); o Bolsa-Férias (pagamento de salário-desemprego, mesmo que em um limite, para trabalhadores de classe média e alta classe média); Bolsa-Aposentadoria (aposentasoria integral para servidores que nao contribuem nem 69% do que deveriam); Bolsa-CarroAdaptado (isenção fiscal para pessoas ricas com algum problema de mobilidade em carros automáticos),etc. O Estado brasileiro é historicamente pródigo com quem não precisa, justamente com as “Donas Cidas”.

O BF pode ser visto como um mecanismo que faz o erário pagar uma parcela necessária e não paga pelo patrão. É como se todos fôssemos sócios desses patrões. Pelo Ponto de vista de Beto, percebo que sou sócio da senhora do outro lado, com cara de entojo, provavelmente amiga da “Dona Cida”, que trata com indiferença de senhora de engenho, o atendente da padaria que a serve.  Sócio involuntário dela e do patrão do atendente mal tratado.

Beto explica: A amiga da “Dona Cida”, evidentemente partícipe da elite, certamente emprega uma mensalista. Imaginemos que a mensalista fosse casada com o ajudante mal tratado, que eles ganhem a média mínima para as funções que desempenham e que tenham dois filhos em idade escolar (a média para um casal da renda/idade/cidade deles).

O problema é que mesmo empregados formalmente e ganhando um pouco acima do mínimo nominal (a média em SP par estas funções é de R$882,00/mês), o rendimento total combinado deste casal (incluídos aqui Vale-transporte, 13º, 1/3 de férias e PIS/PASEP, auxílios, etc.) corresponde a somente 52% das necessidades da família (critério DIEESE).  Se eles acessam o BF (e os demais programas de transferência de renda, aqui incluídos na análise) aos quais eles têm direito, seu rendimento aumentaria em R$ 368,70/mês. Como resultado, eles teriam alcançado somente 65% da renda necessária para viverem dignamente em São Paulo.

Portanto, o que o BF faz é minimizar (nem compensa totalmente) o impacto do baixo valor do Salário e assim subsidiar os empregadores. Assim, se o BF é muleta o é principalmente do empregador brasileiro.

“Dona Cida” pode contra argumentar que o BF subsidia os salários porque eles são pesadamente taxados no Brasil. “Dona Cida” tem razão quando diz que há um “salário oculto”, pago pelo empregador. Mas, se descontarmos o que na verdade é transferência ao próprio empregado (INSS, FGTS, PIS, 13º, férias, Vale transporte, Auxilio Alimentação, Auxilio-Creche etc.), a taxação direta sobre o salário não passa de 20%. (I (inferior à média da OCDE).Assim, mesmo com o “custo empregado”, o salário pago ainda seria bem inferior ao necessário.

Os defensores do BF argumentam que ele tem um documentado impacto positivo do BF sobre a média salarial. E que, com o crescimento da renda média, este subsídio aos salários tende a se extinguir. Isto seria verdade, desde que a Economia crescesse constantemente e a proporção da massa salarial na renda também. Porém, há extensa documentação de que toda Economia entra em desaceleração (às vezes também em recessão) periodicamente e, nestes períodos, achata a massa salarial e recompõe as taxas de lucro do capital investido. Este processo já começou no Brasil, depois do ciclo de crescimento anterior. Isto aponta para dizer que o BF, se depender só do crescimento econômico, seguirá subsidiando o dono da padaria, “Dona Cida” e suas amigas, ainda por muito tempo.  

Não é possível aumentar salários somente pelo Mercado, nem tão pouco na caneta, por decreto.  Isto não quer dizer que não haja uma responsabilidade na política de aumento real do SM, e em uma legislação que privilegie o salário. Também se sabe que os empregadores não podem responsabilizar os baixos salários exclusivamente ao mercado, ao contexto e internacional, nem ao nível global de preços nem tão pouco à cotação do rabanete na Bolsa de Chicago. Há que aplicar outros mecanismos. Mas, isto é tema para outra reflexão de Beto. Hoje o tema é o BF.

Assim, a única porta de saída do BF é um salário suficiente para as necessidades. Quando isto acontecer, o programa poderá ficar restrito aos que necessitam de Assistência, algo em torno de 40% dos atualmente atendidos.


Enquanto este dia não vem, as “Donas Cidas” seguirão os principais beneficiários do BF. E, já que sou sócio do dono, vou pedir desconto no pão na chapa. Não é Beto? Au, Au, Au



TAREFA E BIBLIOGRAFIA: VIDE SITE-> DESENVOLVIMENTO DO CURSO->TAREFAS COMPLEMENTARES


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A SITUAÇÃO ESTÁ BRANCA



“A carne mais barata do mercado é a carne negra”

O IPEA apresentou hoje dados que fazem que os (poucos, espero) que ainda insistem de que não há racismo no Brasil e, no máximo, discriminações por condição social fiquem com menos argumentos ainda.
Alguns dados do Estudo (feito com base nos dados do Censo 2010, PNAD e da Pesquisa Nacional de Vitimização) apontam não só para as mortes, mas para o que os autores chamam de manifestações do “Racismo Institucional” (fracasso coletivo das instituições em promover um serviço profissional e adequado às pessoas por causa da sua cor):

  1. A probabilidade de o negro ser vítima de homicídio é 8 pontos percentuais maior, mesmo quando se compara indivíduos com escolaridade e características socioeconômicas semelhantes.
  2. A cada 3 assassinatos, 2 são de negros.
  3.  O negro é discriminado 2 vezes: pela condição social e por sua cor da pele;
  4. Enquanto o homem negro perde 1,73 ano de expectativa de vida ao nascer, a perda do branco é de 0,71 ano.
  5. Somando-se a população residente nos 226 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, calcula-se que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos.
  6.  6,5% dos negros que sofreram uma agressão no ano anterior à coleta dos dados pelo IBGE, em 2010, tiveram como agressores policiais ou seguranças privados (que muitas vezes são policiais trabalhando nos horários de folga), contra 3,7% dos brancos.
  7.  + de 60% das vítimas negras não procuraram a polícia porque nela não confiam, contra 39% das vítimas brancas.

“Um dos componentes mais claros do racismo institucional  das polícias é naturalizar a relação entre pobreza e criminalidade, tomando incoerentemente a cor da pele como seu indicador visível. O resultado mais contundente deste tipo de atitude é que a taxa
de homicídios de jovens negros no Brasil, com a qual as próprias polícias contribuem de forma significativa, é bem superior às taxas de mortes de jovens de países em guerra”
As diferenças de escolaridade e renda entre brancos e negros diminuiu sem mostrar melhorias em outras dimensões. A situação segue “Branca”, isto é, sem mudança significativa.

O Estudo, parte do BAP, pode ser encontrado em:




sexta-feira, 11 de outubro de 2013

FELIZ DIA DO NADA


Tem dia de tudo o que precisamos de um dia para lembrar de que se esquece nos outros 364/365. Daí não precisar de "Dia do homem branco hétero de classe média". Todo dia já é dia do hegemônico.

Amanhã é Dia da Crianças (na definição da ONU, 0-17 aa). Hoje, Dia Internacional da Menina. Infelizmente precisamos destes dias.

É bom dar brinquedos no dia das crianças. Pena que a sociedade dá outros presentes de grego no restante do ano:
  • Crianças, nos Brasil,  são ainda 2 vezes mais pobres do que adultos (eram 4 xs há 15 anos). - - São 3,1 vezes mais vítimas da violência doméstica. 4.4 vezes mais vitimizadas a violência armada.
  • Há 6 vezes mais juízes do trabalho (para cuidar de 32% da população  do que de varas dedicadas à infância (41% da pop.). Crianças são condenadas à prisão (ou vc acredita que a Fundação Casa aplica medida sócio-educativa?) por até 3 anos sem direito a advogado e processo legal.
  • crianças recebem proporcionalmente menos da metade do investimento em saúde (41%)do que adultos.
  • de cada R$10,00 de incentivo para a cultura, apenas 0,61 são aplicados para atividades gratuitas dirigidas à crianças.


Eu poderia seguir esta lista até o dia 12/10/2014. Mas, acho que vc já pegou a ideia: a sociedade brasileira, o Estado, você, eu, o cara na mesa ao lado discriminamos as crianças, e as tratamos como semi-cidadãs (se é que existe isto). Em diferentes proporções, esta segregação é verificada em praticamente todos os países do mundo.

Coloque estes dados aí de cima entre parêntesis e multiplique pelo fator MACHISMO. 

Meninas sofrem ainda mais do que os meninos.

Mesmo que no Brasil não haja a terrível brecha de escolarização básica de outros países (320 milhões de meninas são proibidas de irem à escola, em todo mundo!), nem a institucionalização do casamento forçado, a dívida com as meninas existe por aqui tb. Ela se revela em proporções várias:
  • a precariedade do atendimento especializado em saúde.Alias, as políticas públicas raramente são desenhadas para as atender as condições específicas das meninas.
  • com exceção da violência armada, meninas são as maiores vítimas de Todos os demais tipos de violência,inclusive as mais sofisticadas e de difícil registro.
  • 47 em cada 100 vítimas de crimes de natureza sexuais são meninas (4 são homens adultos).
  • mesmo tendo mais escolarização do que os meninos, No futuro, esperam pelas meninas Salários mais baixos para as mesmas funções. E Proporção menor de acesso às carreiras mais valorizadas.

Mas estas não são as única vulnerabilidade  a qual estão expostas às meninas. É que os piores crimes de uma sociedade são os mais escondidos e portanto  mais difíceis de colocar em um gráfico de pizza. Quando chegam às estatísticas, já é tarde. É "desde menino que entortamos o pepino" do sexismo e suas manifestações socioeconômicas culturais, religiosas e diversos eticéteras.

" Pelos seus números vos conhecereis". E os números brasileiros (os mundiais tb) mostram que crianças e, em proporção cumulativa, ainda mais as meninas sofrem de um não oficializado apartheid.

E de tão banal a discriminação, acabamos por acha-la natural. Não é.

De tão beneficiados como grupo dominante que somos, nós adultos racionalizamos. Relativizamos. Fugimos da realidade. Poderia dizer que negar a realidade é um comportamento "infantil". Mas, seria injusto com as crianças. Infantil é algo que nossa sociedade deveria ser e não é.

Pensamos que "a infância passa". Mas, não passa, fica nas estruturas. Uma sociedade que trata desigualmente às suas crianças, perpetua a injustiça, embrenha a desigualdade, reduz suas possibilidades de transformação positiva. Tratar desigualmente as crianças (e ainda mais desigualmente as meninas) é cavar, com seus próprios pés, o abismo social.

Ao invés de nos transformarmos pelas crianças (sermos "como crianças"), transformamos as  crianças em grupo explorado, garantimos a perpetuação do ciclo de injustiça.

Leis para beneficiar idosos todo mundo acha bonitinho. Beneficiar Criança para que? Se elas sobreviverem e chegarem a ser idosos, a gente protege.  O discurso fácil diz que é possível incluir sem mexer nos seus privilégios, sem dividir a conta. Não é. 

Tratar as crianças (e as meninas) com justiça representará quebrar os privilégios adultos/machistas. Mas, quem abre mão de privilégios? O conceito de Direito Adquirido (principal argumento dos proprietários de escravos no Brasil  quando criticavam a proposta de Abolição) nos faz ignorar que não há Direito na Injustiça. 

"Mudar tudo o que está por aí" não se fará por compartilhamento nem curtidas de Facebook. Nem por passeata pós-modernas. A única subversão capaz desta tarefa  é Tratar com justiça as crianças. 

Justiça para Crianças, inclusive TODAS as meninas, implica em aplicar prioritariamente o orçamento público a elas. Criar e fazer cumprir leis que as protejam e respeitem a especificidade. Valorizar, privilegiar, sobrepor o interesse da criança ao nosso. Tornar-se intolerante com a desigualdade e o preconceito. Ouvir as crianças e dialogar com elas. 

Parafraseando o slogan de minha presidenta: "Sociedade desenvolvida é Sociedade que não  precisa de Dia das crianças nem de Dia das Meninas"

Como o texto ficou sombrio demais, melhor terminar com algo tipo:

Por um Feliz Dia das Crianças...

Melhor, por um dia em que a gente possa desejar FELIZ DIA DO NADA 

segunda-feira, 14 de maio de 2012

MÓRMONS E NEGÓCIOS: A FÉ DOS SOCIÓLOGOS NAS CORRELAÇÕES

Não é que há sociólogo que ainda crê em causa-e-efeito. Nem corintiano tem tanta fé :>

É curioso como, depois de 150 anos de teoria sociológica, ainda não se admita na causalidade múltipla e complexa. A história e os dados têm mostrado que não há fatores explicativos mágicos, explicações pivotais e centroavantes que não cavem pênaltis. Transformamos pistas em conclusões.


Parece que Weber segue como desculpa para a preguiça analítica :-)



The Mormon way of business
(The Economist)

The Mormons have produced a striking number of successful businesspeople
JOKES about sacred underpants have reached epidemic proportions, thanks to Mitt Romney’s presidential bid and the musical masterpiece by Matt Stone and Trey Parker, “The Book of Mormon”. But the Church of Jesus Christ of Latter-Day Saints, to give it its full name, is fighting back. A huge advertising campaign features ordinary people doing ordinary things—a white man sporting a beard, a black man sporting a moustache and a young skateboarder flying through the air—with the tag line: “I’m a Mormon.”
The snag is, not everyone will buy the idea that Mormons are just like the rest of us. They don’t get drunk. They have large families, stable marriages and a three-month supply of food in the larder in case of Armageddon. They are usually clean-cut and neatly dressed (the facial hair in the “I’m a Mormon” ads is thankfully atypical). And they have a passion for business.

Less than 2% of Americans are Mormons, yet their commercial prominence belies their numbers. Mitt Romney founded Bain Capital, a private-equity powerhouse. Jon Huntsman senior (the father of Mr Romney’s rival for the Republican crown) founded Huntsman Corporation, an $11 billion chemicals giant. David Neeleman has founded two cut-price airlines: JetBlue in America and Azul in Brazil. Ralph Atkin started a third: SkyWest Airlines. Eric Varvel is the boss of Credit Suisse’s investment bank, Harris Simmons heads Zions Bancorporation, a more local bank, and Allan O’Bryant runs the Japanese arm of Reinsurance Group of America. J.W. Marriott runs the hotel chain his father created. Had Max Weber lived a century later, he might have made sweeping generalisations about the “Mormon work ethic”.

Mormons have constructed a huge pro-business infrastructure. The Marriott School at Brigham Young University provides among the best value for money of any business school in America, charging Mormons just $10,000 a year, a fifth of the fees at the leading schools. Mormons are such a force at Harvard Business School that people joke about being dominated by the three “Ms” (the other two are McKinsey and the military). Clayton Christensen of Harvard is one of the world’s leading management thinkers. Stephen Covey, the author of “The 7 Habits of Highly Effective People”, is one of its leading self-help gurus.

Small wonder young Mormons keep pouring into business. Provo, the home of Brigham Young University, is a high-tech hub, the home of Novell and hundreds of other computer and graphic-design companies. Big investment banks have added the Marriott School to Harvard and Wharton as one of their favourite hunting grounds. Goldman Sachs has opened one of its largest offices outside New York in Salt Lake City. Jeremy Andrus, a young chief executive, has recently taken Skullcandy, a headphone company, public for $125m. Household income in Utah, where Mormons predominate, is above the American average.

What explains the Mormons’ success? Clean living probably helps: alcohol clouds judgment and lubricates bad deals. A history of persecution may breed self-reliance: 19th-century Mormons trekked westwards across plains and mountains to escape the kind of bigots who murdered their founder, Joseph Smith, in 1844. Modern Mormons have something in common with other industrious minorities, such as Parsees, who are prominent in corporate India, the overseas Chinese and Jews. But some of the answer may lie in the faith itself. Mormonism—the only global religion to have been invented in the past 200 years—is in some ways more business-friendly than its more ancient rivals.

Mormons revere organisation. They believe that God created the world out of chaos, rather than out of nothing. They also believe that men and women are capable of “eternal progression” towards “Godhood”, so long as they conduct themselves like busy little bees. The church is probably the best-organised in the world and certainly the most cost-effective. The president and his 12 advisers sit at the top like the board of a multinational. Below them, the church depends on a throng of lay volunteers. Church members begin to perform in public at the age of three. They become “deacons” at 12 and are given more demanding jobs as they grow older. The faithful are expected to give 10% of their pre-tax income to the church. No one knows how much money it has, but unofficial estimates are in the billions.

The fiercest crucible for young Mormons is the mission. Mormon men serve as missionaries for two years when they turn 19; women for 18 months when they turn 21. They have no choice over where they go and often have to learn a foreign language. They are cut off from their families (they are allowed only two phone calls home a year) and assigned a “companion” to keep them on the straight and narrow. They are expected to proselytise for ten hours a day, six days a week. Few other groups experience anything as demanding at a similar age. One exception is young Israelis, who spend gruelling years in the military, and who also have an outstanding record as entrepreneurs.
Missionary work provides young Mormons with a fluency in foreign languages that is rare in America. Mr Neeleman, for example, was born in Brazil and returned there as a youngster to do missionary work. His feel for the local culture, and fluent Portuguese, make it easier for him to adapt what he learned about running airlines in America to the Brazilian market.

Missionary work also teaches young Mormons to persevere despite harsh odds. They must sell a product for which there is almost no demand: an idiosyncratic version of Christianity that teaches that Christ made a post-resurrection visit to the United States, that the Garden of Eden may have been in Missouri and that drinking alcohol is a sin. After that, selling airline seats or life insurance must be a doddle.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

DESIGUALDADE NO BRASIL E O BOTAFOGO


Até final da década passada, dois assuntos pareciam imutáveis desde a década de 60: a desigualdade brasileira e o azar do Botafogo (do meu amigo Cesar Calonio, UFRPE).

Olhar então o gráfico de evolução anual da linha de desigualdade (GINI) no Brasil era ideal para pessoas com insônia. Parecia um gráfico de paciente terminal, “flat”. Mas, desde 1999 a linha reviveu. E poucos estudaram tanto este comportamento século XXI da desigualdade brasileira quanto Marcelo Neri. Corre a piada na GV, de que Neri é brilhante, mas tem um defeito grave: ele sabe disto rsrsrs.

Tirando a sessão fofoca, Neri vem demonstrando há anos que a primeira década do século 21 mostra uma redução impressionante nos índices de desigualdade. E neste período se concentra o último estudo de Neri e equipe CPS: Desigualdade de Renda.

A desigualdade de renda “evolui tanto” tanto que chegamos aos mesmos níveis dos anos 70. Sim. O país quase conseguiu apagar da linha de GINI os anos de hiper inflação. Nada foi mais desastroso para a desigualdade brasileira do que a inflação. Ou você achava que o BC sobre juros para alegrar bancos e rentistas? Não. O objetivo é reduzir a desigualdade kkkk. 

As tendências identificadas no estudo apontam para que o Brasil tenha em 2014 o menor nível GINI da série, que começou a ser medida na década de 60. Em outras palavras, você terá algo para comemorar em 2014, já que a seleção...

Antes de você estourar a champagne, se compararmos o Brasil com seus “pares de PIB”, ele continua o país com maior concentração de renda. Por sinal, um tipo de indicador que deve ser comparado somente entre países industrializados porque o GINI calculado por consumo (aplicado em 3 de cada 4 países de baixo IDH) é de outra natureza.

Da sopa de letrinhas do IBGE, poucos entendem de PME e PNAD como Neri (como homem não resiste à fofoca: o nome do Centro de Políticas Sociais, da FGV, foi escolhido por ele para ter a sigla CPS, a “PNAD” americana). O estudo propõe uma “espécie de metodologia Lego”, ao pegar peças distintas  (todas da PME+PNAD) e encaixá-las.

Ao revisar os dados destas duas pesquisas, e trabalhar fortemente com os n;umeros de 2008 e 2009, o estudo reforça duas conclusões importantes:

1. A Pobreza, medida pela combinação PNAD/PME caiu:

- 31,9% da “Era FHC”: incorporando o Real e descontando o imposto inflacionário.

- 50,64% na “Era Lula”: 2003-2010.

- 16.3% somente entre Dez 2009-Dez 2010.

- 67.3% desde o Real até Dez 2010. O que falta reduzir é o “terço” mais difícil, o núcleo duro da pobreza, aquele que não cede com as atuais políticas.


2. A redução da desigualdade no Brasil foi considerável e continua:

A. Causas da Redução:
- Maiormente, ao avanço no emprego (na pesquisa, “esforço trabalho” = jornada,  taxas de participação e ocupação).
- Há outros 3 determinantes na redução da desigualdade de renda: Programas Sociais (~1/3 do impacto); Bônus Educacional (+ estudo, + renda); e Educação.

B. A redução da desigualdade mostra uma intensificação nos últimos anos da década (impacto residual positivo) o que melhora as perspectivas até 2014 (mesmo com a seleção de volantes rsrsrs).

Como todo lego, há outras maneiras de montar os dados que Neri usa. Pode-se argumentar que ele está muito enfocado no todo e não percebe os problemas “dentro” do grupo de pobres que revela, por exemplo, estagnação de um grupo de quase 15% da população. Mas, isto não tira a precisão da macro-visão da pesquisa.

Dos temas sem esperança, a desigualdade parece que tem jeito, já o azar do Botafogo... rsrsrs

Vá ao site do CPS e veja a pesquisa toda:


sexta-feira, 1 de abril de 2011

DESENVOLVIMENTO E POLÍTICA: COSTA DO MARFIM


Curiosa a memória e seus filtros. Faz 20 anos, muitos fatos talvez mais relevantes se foram, mas nao me esqueço do último dia de uma visita impressionante. O Sol refletido no turquesa da baia da Abdijan dizia, sem pedir licença, um enfático “bom dia” para os hóspedes do hotel. A cortina não era párea para uma luminosidade  que contradizia o relógio, onde ainda aparecia 05h50min. Abdijan dispensa despertadores.

Avenidas largas sonhos de governos megalomaníacos e suas majostosas palmeiras, combinavam com ruas desorganziadas de um passado colonial recente. Transplante europeu deslocado. A herança do colonizador, colonizada. Gente colorida e suas conversas sempre empolgadas. Sorrisos e protestos evidentes. Tudo muito evidente como convém neste lado do mundo. Os tambores sincronizam o coração. A piada e o sorriso sempre presentes, mesmo ou principalmente, na tragédia. O oceano não separa os fortes traços de culturas africanas que nos vieram de toda aquela região. Traços que são, assumidamente ou não, o centro do que chamamos de cultura brasileira. Para um brasileiro, a Abdijan  de 1991 era como a casa de um familiar.

Foram dias de intensas boas surpresas em cidades e vilas alcançadas por estradas muito mais bem cuidadas que as de grande parte do interior brasileiro. Pequeno, então pacífico e com uma distribuição fundiária quase em padrões europeus, a Costa do Marfim desafiara meu pessimismo em relação ao futuro da África. O país vivia um período de democratização, depois de mais de uma década de relataiva prosperidade, mas de um único presidente. Se as Democracias talvez se pareçam, as ditaduras são sempre singulares. Esta tinha um parlamento e um primeiro-ministro eleitos, mas um só partido. Substituía as habituais brutais forças de Inteligência por uma rede de escolas públicas, presentes em toda comunidade. As escolas eram os pontos tanto de controle como de distribuição de benesses sociais. Na liderança um líder carismático, libertador e herói nacional, com preocupações sociais contraditórias. Era o que hoje acostumamos chamar de populista. O presidente, outrora auto-proclamado, agora tinha a legitimidade das urnas, nas primeiras eleições pluripartidárias e fiscalizadas.

As escolas surgidas para controlar haviam se transformado em núcleos comunitários. Cada comunidade, por menor que fosse, tinha sua organização. Jovens, oriundos da primeira geração alfabetizada, chefiavam conselhos comunitários. Era estimulada a crítica a tudo e todos, menos ao presidente. Esta mistura de estabilidade de um regime de partido único, em um país que já multipartidário, a liberdade empreendedora, um povo aberto a estrangeiros e um Estado que não insistia em regular os detalhes da vida, atraiu investimentos de toda a parte. Também foi o contexto que fez da Costa do Marfim um ponto de encontro e diálogo diplomático para países vizinhos então (e a maioria até hoje) em crise.

Esse ambiente de relativa paz, taxas de escolarização superiores à média africana e a boa infra-estrutura possibilitavam uma exploração mininamente racional das riquezas minerais (presente abundamente em quase toda a região, uma das províncias minerais mais ricas do mundo). Naquele ano, o país completava 20 anos de melhoria ininterrupta no seu Índice de Desenvolvimento Humano. A continuar a tendência, em mmenos de 2 décadas, seria um país de desenvolvimento médio e o 3º IDH da África. Esta foi a afirmação que ouvi atento e cédulo de um painel de economistas, chamados pelo Banco Mundial e pelo Banco Africano de Desenvolvimento. Pensava presenciar um país que abandonava a pobreza.

As Organizações humanitárias também eram otimistas. Reduziram ou fecharam seus programas de assistência no país. Abdijan, por sua paz e infra-estrutura, era então a sede administrativa sub-regional de muitos organismos do sistema internacional.

Mas, política não segue tendência estatística. E não há conquista que não possa ser perdida. Desde a década de 90 a Costa do Marfim alternou crises políticas com períodos de normalidade, cada vez mais raros. Conflitos institucionais evoluíram para guerrilhas, Golpes de Estado e guerras civis. Os investimentos se foram pouco a pouco. As agências humanitárias nunca retornaram. Restaram apenas os investidores de alto risco e baixa responsabilidade que trocam diamantes por armas ou até drogas.

Hoje a Costa do Marfim vive talvez os últimos dias da atual guerra civil. Seja qual for o desfecho, outras guerras provavelmente seguirão. A infra-estrutura do país acabou. Da rede de escolas públicas, restam ruínas. Estima-se que as taxas de analfabetismo estão entre as cinco piores do continente africano. Quase 200.000 crianças (abaixo de 16 anos) estão arregimentadas nas forças bélicas. Um levantamento do UNICEF contou quase 10000 crianças órfãs. com menos de 12 anos. somente nas ruas das 4 principais cidades do país. Dois terços das crianças marfinesas sofrem de desnutrição. Todo o ganho social das décadas de 70 e 80 se foi. Mesmo que a paz chegue ao país (e, em curto prazo, não há indícios que virá), seriam necessárias décadas e bilhões para voltar ao ponto de 1990. Até lá, toda uma geração de crianças marfinesas terá morrido ou sobrevivido em condições de fome, violência e abandono.

Costa do Marfim e tantos outros exemplos só corroboram o que se sabe e freqüentemente se tenta esquecer. Há desafios econômicos, sociais, educacionais, mas o Desenvolvimento é uma tarefa primeiramente Política (com o P mais maiúsculo que se pode ter) e sem política não pode avançar.

O Desenvolvimento é um processo sem atalhos, mas com muitos retornos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nem Freud explica. Ainda Bem.


Amigos meus passaram a noite de domingo em seus computadores para fazer correlações eleitorais.

Melhor seria terem ido à balada. Todas as tentativas de explicar os votos por renda, escolaridade, IDH, cor não deram em nada digno de nota. As que existem não passam pelo teste do “todos contra mim”. Não se repetem mais do que todas as outras somadas.

Candidatos com menos votos até apresentam correlações. No 1º. Turno, a candidata Maria Silva apresentou um viés muito claro de voto X indicadores sociais. Mas, eleições de 2º. turno já são tradicionalmente refratárias a este tipo de tentativa explicativa. Trata-se de um pleito onde o voto é decidido quase igualmente com base na opção e na rejeição.

Além disto, nesta eleição se aprofundou o fenômeno de descolamento entre indicadores e voto. Ele ainda é percebido nas duas extremidades dos indicadores. Mesmo assim, aparentemente só para renda. Isto é, os muito ricos e os muito pobres divergem profundamente em seus votos. Fora isto, nos casos dos dois candidatos, as demais diferenças forma pífias e não dão base para teses.

Religião, renda, escolaridade, gênero, cor, hábitos de leitura, etc. Nenhum dos indicadores sozinho baseia mais de 8% de viés. E ainda não sustentados, i.e., que não se repetem. Mesmo quando há aparente correlação dentro de um estado, ela não se sustenta na análise nacional. Pessoas com baixa renda votam diferentemente em estados distintos. Pessoas com nível superior em um divergem de seus pares em outro.

O que explica o voto então?  Os indicadores sociais certamente não são neutros na equação da decisão, mas eles não explicam. Eles compõem uma lógica decisória por camadas. Para tristeza dos que crêem em lógicas estruturantes para toda decisão, como se o ser humano fosse determinado a certas escolhas pelo seu contexto, as diferenças de votos parecem ter 3 camadas: familiar, pessoal,  geográfica e estruturante (indicadores).  Famílias votam unidas em 8 de cada 10 casos no Brasil. Pessoas votam como seus amigos mais chegados em 7 de cada 10. Em municípios de até 100.000 habitantes, 68% tiveram comportamentos eleitorais homogêneos. Por fim, há as opções relacionadas às condições.


O complexo na decisão é que estas camadas são sobrepostas e combináveis, e, de acordo com o indivíduo, exercem pesos distintos. O que é a desgraça dos analistas é a fortaleza da Democracia. Eleições com todas suas imperfeições (a principal delas na desigualdade entre candidatos com grandes estruturas/capacidade de arrecadação e os demais) ainda são espaços de opção não controláveis. Por mais que os marqueteiros influenciem, a lógica decisória não é previsível.

Resta a constatação que 99% dos torcedores do Fluminense votaram em Fred porque Washington virou "embaixador da boa-vontade", só conversa com o goleiro adversário.