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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

FELIZ DIA DO NADA


Tem dia de tudo o que precisamos de um dia para lembrar de que se esquece nos outros 364/365. Daí não precisar de "Dia do homem branco hétero de classe média". Todo dia já é dia do hegemônico.

Amanhã é Dia da Crianças (na definição da ONU, 0-17 aa). Hoje, Dia Internacional da Menina. Infelizmente precisamos destes dias.

É bom dar brinquedos no dia das crianças. Pena que a sociedade dá outros presentes de grego no restante do ano:
  • Crianças, nos Brasil,  são ainda 2 vezes mais pobres do que adultos (eram 4 xs há 15 anos). - - São 3,1 vezes mais vítimas da violência doméstica. 4.4 vezes mais vitimizadas a violência armada.
  • Há 6 vezes mais juízes do trabalho (para cuidar de 32% da população  do que de varas dedicadas à infância (41% da pop.). Crianças são condenadas à prisão (ou vc acredita que a Fundação Casa aplica medida sócio-educativa?) por até 3 anos sem direito a advogado e processo legal.
  • crianças recebem proporcionalmente menos da metade do investimento em saúde (41%)do que adultos.
  • de cada R$10,00 de incentivo para a cultura, apenas 0,61 são aplicados para atividades gratuitas dirigidas à crianças.


Eu poderia seguir esta lista até o dia 12/10/2014. Mas, acho que vc já pegou a ideia: a sociedade brasileira, o Estado, você, eu, o cara na mesa ao lado discriminamos as crianças, e as tratamos como semi-cidadãs (se é que existe isto). Em diferentes proporções, esta segregação é verificada em praticamente todos os países do mundo.

Coloque estes dados aí de cima entre parêntesis e multiplique pelo fator MACHISMO. 

Meninas sofrem ainda mais do que os meninos.

Mesmo que no Brasil não haja a terrível brecha de escolarização básica de outros países (320 milhões de meninas são proibidas de irem à escola, em todo mundo!), nem a institucionalização do casamento forçado, a dívida com as meninas existe por aqui tb. Ela se revela em proporções várias:
  • a precariedade do atendimento especializado em saúde.Alias, as políticas públicas raramente são desenhadas para as atender as condições específicas das meninas.
  • com exceção da violência armada, meninas são as maiores vítimas de Todos os demais tipos de violência,inclusive as mais sofisticadas e de difícil registro.
  • 47 em cada 100 vítimas de crimes de natureza sexuais são meninas (4 são homens adultos).
  • mesmo tendo mais escolarização do que os meninos, No futuro, esperam pelas meninas Salários mais baixos para as mesmas funções. E Proporção menor de acesso às carreiras mais valorizadas.

Mas estas não são as única vulnerabilidade  a qual estão expostas às meninas. É que os piores crimes de uma sociedade são os mais escondidos e portanto  mais difíceis de colocar em um gráfico de pizza. Quando chegam às estatísticas, já é tarde. É "desde menino que entortamos o pepino" do sexismo e suas manifestações socioeconômicas culturais, religiosas e diversos eticéteras.

" Pelos seus números vos conhecereis". E os números brasileiros (os mundiais tb) mostram que crianças e, em proporção cumulativa, ainda mais as meninas sofrem de um não oficializado apartheid.

E de tão banal a discriminação, acabamos por acha-la natural. Não é.

De tão beneficiados como grupo dominante que somos, nós adultos racionalizamos. Relativizamos. Fugimos da realidade. Poderia dizer que negar a realidade é um comportamento "infantil". Mas, seria injusto com as crianças. Infantil é algo que nossa sociedade deveria ser e não é.

Pensamos que "a infância passa". Mas, não passa, fica nas estruturas. Uma sociedade que trata desigualmente às suas crianças, perpetua a injustiça, embrenha a desigualdade, reduz suas possibilidades de transformação positiva. Tratar desigualmente as crianças (e ainda mais desigualmente as meninas) é cavar, com seus próprios pés, o abismo social.

Ao invés de nos transformarmos pelas crianças (sermos "como crianças"), transformamos as  crianças em grupo explorado, garantimos a perpetuação do ciclo de injustiça.

Leis para beneficiar idosos todo mundo acha bonitinho. Beneficiar Criança para que? Se elas sobreviverem e chegarem a ser idosos, a gente protege.  O discurso fácil diz que é possível incluir sem mexer nos seus privilégios, sem dividir a conta. Não é. 

Tratar as crianças (e as meninas) com justiça representará quebrar os privilégios adultos/machistas. Mas, quem abre mão de privilégios? O conceito de Direito Adquirido (principal argumento dos proprietários de escravos no Brasil  quando criticavam a proposta de Abolição) nos faz ignorar que não há Direito na Injustiça. 

"Mudar tudo o que está por aí" não se fará por compartilhamento nem curtidas de Facebook. Nem por passeata pós-modernas. A única subversão capaz desta tarefa  é Tratar com justiça as crianças. 

Justiça para Crianças, inclusive TODAS as meninas, implica em aplicar prioritariamente o orçamento público a elas. Criar e fazer cumprir leis que as protejam e respeitem a especificidade. Valorizar, privilegiar, sobrepor o interesse da criança ao nosso. Tornar-se intolerante com a desigualdade e o preconceito. Ouvir as crianças e dialogar com elas. 

Parafraseando o slogan de minha presidenta: "Sociedade desenvolvida é Sociedade que não  precisa de Dia das crianças nem de Dia das Meninas"

Como o texto ficou sombrio demais, melhor terminar com algo tipo:

Por um Feliz Dia das Crianças...

Melhor, por um dia em que a gente possa desejar FELIZ DIA DO NADA 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O TESTE NÃO PASSA NO TESTE


Na semana passada, a Coréia do Sul comemorou o Dia das Crianças. Feriado nacional. Todo mundo vai fazer piquenique, passear pelos belos e harmônicos parques coreanos. Neste dia foram divulgados os resultados de uma pesquisa ( da Universidade de Yonsei, Seul )que mostram que os adolescentes coreanos são, de longe, o mais infelizes da OCDE (o clubinho quase exclusivamente freqüentado pelos países ricos, que o Brasil decidiu esnobar:).

A pesquisa revela que 76% das crianças e adolescentes coreanos se sente infeliz. Você pode argumentar que nenhuma adolescente (exceto o Neymar) se acha perfeito. Mas, a média é menos da metade da existente em outros países da OCDE. 8 em cada 10 crianças e adolescentes coreanos dizem que sua tristeza é a escola. Bem, minha filha também acha que a tristeza dela é a escola. O que há de diferente nisto? Na Coréia, as crianças e adolescentes declaram que se sentem abaixo do que deveriam desempenhar. Quase 15% destes adolescentes já tentaram suicídio, um índice 5 vezes maior do que a média mundial. Na Coréia do Sul, o índice o suicídio entre os jovens é a principal causa de morte entre aqueles com idade entre 15-24.

O curioso é que a Coréia é usada como exemplo e modelo em todo mundo na questão da educação. Todo político gosta de dizer que Coréia é onde deveríamos estar. E dá-lhe exemplo coreano para tudo. Este fixação de modelo é baseada nos resultados de exames como o PISA e o ELSC. Mas, isto é tudo o que crianças e adolescentes precisam? Bons resultados em testes padronizados? Diante de um quadro de múltipla escolha padrão, 7 em cada 10 crianças e adolescentes coreanos declararam que seu maior sonho na vida é tirar mais de 90% nos testes nacionais (qualquer coisa abaixo disto é considerado vergonha na Coréia). Apenas 1 colocou entre seus sonhos que seus pais e irmãos sejam felizes e tenham boa saúde (outra opção do cartão).

Pesquisas deste tipo não têm insumos suficientes para conclusões. Respondemos perguntas segundo aquilo que achamos que as pessoas querem ouvir, combinado (de formas inúmeras e complexas) com o que queremos que elas achem de nós. Felicidade também é um conceito de difícil comparabilidade. Então, se os resultados não são suficientes para fazer um Infelicitômetro da infância. Mas, as conclusões são suficientemente fortes para serem combinadas com outros indicadores.
 

Para ir bem em testes, a criança média coreana freqüenta, além da escola regular, uma série de "academias" privadas. Nelas, aperfeiçoam Inglês, Matemática, e a fluência na "respeitáveis" instrumentos musicais, piano e violino (Coreano não estuda berimbau). Apenas de ilegal (mas, não fiscalizado) 39% das crianças e adolescentes coreanos passam mais de 10 horas por dia estudando. 9% estudam 14 horas por dia. Mesmo com uma educação pública muito boa (boa para os testes ao menos), a competitividade força a classe média a investir dinheiro nestas academias. Para conseguir ir melhor ainda nos testes, os pais pagam as melhores academias. O custo de educação na Coréia já é maior do que países onde a classe média coloca filhos em escola privada (como o Brasil e México). Este custo é um dos responsável por diminuir as taxas de fecundidade ainda mais doq eu a média mundial. O que faz com que a Coréia do Sul esteja numa curva de envelhecimento populacional artificial. Em 2026 o país já terá escassez de crianças.

Na pesquisa coreana, um grupo de análise (formados por “colegas” da Carol e da Angela, ie, todos da Faculdade de Psicologia) diz que a culpa é da cultura. A explicação faz sentido. Mas, não resolve. É sabido que a cultura asiática tem se mostrado extremamente ajustada à competitividade (Slavo Zizek até defende que o capitalismo só encontrou seu campo perfeito de desenvolvimento na Ásia, sem as “amarras da ética ocidental”). Mas, a cultura não excetua a responsabilidade de uma sociedade pelas crianças, pelo modelo de sociabilidade que se quer gerar. O desenvolvimento é sabidamente muito mais do que a capacidade de responder a testes. Educação se vincula ao Desenvolvimento não só por sua correlação com produtividade, mas porque se presupõe que ela melhore a vida das pessoas. Se Pisa for igual a Educação (como se diz hoje) países com altíssimo Pisa deveriam ser de fato lugares melhores para as pessoas viverem. A pesquisa Coreana põe em dúvida isto.

Talvez a Coréia do Sul seja realmente um modelo. Só que não para ser copiado.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

MUITOS NUMEROS, UM DESAFIO (ou porque 16 = 25 = 5)


O grupo de música clássica dos anos 80, Blitz já cantava “Tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, Mas eu realmente... “

As principais conclusões do Censo 2010 já tinham sido antecipadas aqui, no mês passado. Refuto as acusações de ter acesso privilegiado só porque tenho um homônimo presidente do IBGE kkk Nenhum Eduardo tem culpa disto. A culpa é da Estatística. Pelos dados da contagem, lançados há 2 meses, já era possível antecipar boa parte dos resultados preliminares divulgados na semana passada. Afinal, como nossas pesquisas por amostragem (principalmente a PNAD) são bem feitas, logo era de se esperar que não tivéssemos surpresas. Apaixonantes mágicas da estatística que corroboram que as principais matérias-primas de Deus ao fazer o universo foram Matemática e Poesia :-)

De volta ao Censo, comecemos pelo assunto do momento: Miséria, Extrema Pobreza, Perrengue, etc. Quando as estatísticas eram tão assustadoras que só revelavam que não poderíamos mudar a situação, acostumamo-nos a olhar percentuais e fitar neles para nossos desafios. Perdido de um, perdido de 10.

Mas, a situação mudou. A dinâmica populacional e melhoria socioeconômica brasileira tornaram o quadro mais definido, nas últimas duas décadas. Como um tempero de salada que parado, começa a revelar claramente seus ingredientes. Paradoxalmente, quanto menor, mais os grupos vulneráveis tornam-se visíveis. E para ver os ingredientes é preciso ir além dos percentuais.

Assim, precisamos atentar para os números absolutos que nos desafiam. Todos já viram nas manchetes: “16.000.000 de pessoas estão abaixo da linha da extrema pobreza (miséria)”. Vamos ao que a imprensa não conta porque tem preguiça de escrever e você preguiça de ler:

1. O IBGE contou 11.430.465 pessoas com renda entre R$1,00 e R$70,00. De onde vêm os 16 milhões?

2. O Censo também contou outras pessoas que declararam renda ZERO, 4.836.732.

3. Você pode pensar: É gente que quer esconder o que tem. Alguém no IBGE é tão espero quanto você, e para evitar isto aplicou um filtro. Assim, só contam os que declararam renda ZERO e moravam em domicílios sem água, esgoto, banheiro ou sem energia elétrica e tinham pelo menos um morador com +de 15 anos analfabeto e sem moradores acima de 65 anos. Em resumo, gente realmente pobre, embora saibamos que a renda ZERO não existe. Somados aos do item#1, temos os 16.267.197 pessoas extremamente pobres. O número das manchetes. Mas, se fosse para ficar nas manchetes teria sido jornalista rsrsrs.

4. Estes 16.267.197 são os que vivem em “domicílios permanentes”. Isto é, estes são os muito pobres com CEP. E os que não têm? Censo não serve para este tipo de população, mas ela existe. Vários estudos, aplicados às regiões metropolitanas das capitais e às outras 5 maiores cidades em cada estado, estimam o número desta população móvel. Na hipótese mais otimista, há nas condições de extrema precariedade, sem domicílio permanente o equivalente a 0,8% da população estável. Daí, somemos aos 16.267.197 outros 1.518.328. Logo, haveria no Brasil 17.785.525 pessoas com renda inferior a R$70,00 per capita.

5. Mas, estas 17.785.525 têm companhia. São aquelas pessoas que estão na faixa de extrema volatilidade, isto é, sua renda não vem de fontes estáveis, por isto elas podem passar para o outro lado da linha facilmente. Dos 19.738.897 que estão na faixa de pobreza (a quem vem acima da de pobreza, entre R$71,00 e R$140,00), 3.553.001 estão muito próximas à linha de miséria e não têm fontes estáveis. Logo, são miseráveis também. Assim chegamos a 21.338.526 de pessoas extremamente pobres no Brasil.

6. A conta acaba aqui, certo? Errado. Vamos aplicar outro filtro. Regiões. O próprio IBGE mede o preço da cesta básica em vários pontos do país. Daí é possível corrigir o número mágico de R$70. Mas, se R$70 é média já não seria corrigido? Sim, se a distribuição dos pobres acompanhasse a média populacional, mas não acompanha. Algumas regiões mais caras têm proporcionalmente mais pobres do que outras. Logo, nestas regiões precisaríamos elevar a linha de extrema pobreza. Se assim fizermos, outros 1.904.630 extremamente pobres aparecem na nossa contagem. Para ser justo, vamos descontar as regiões onde o custo de vida é menor. Isto retira 299.507 pessoas da lista. Novo número de extremamente pobres: 22.943.649.

7. Além da correção de custo de vida regional, há outra raramente estimada. O custo-criança. Para cada pessoa abaixo dos 15 anos (até 5 por família) o custo de vida sobe em média, 6.5%. A pirâmide etária na faixa dos mais pobres é bem diferente das existentes nas demais faixas (vide grafico, ao fim). Enquanto na ponta dos mais ricos (acima de R$1.120,00 per capita) 7.2 em cada 100 pessoas têm menos de 15 anos; na ponta dos mais pobres, 17.1 estão nesta faixa etária. Usando a média de 3.1 crianças abaixo de 15 anos por domicílio nesta faixa de renda, e corrigindo pelos custos regionais, o novo número de miseráveis seria 25.008.577.

8. Logo havia no Brasil, em Novembro de 2010, mais de 25 milhões de pessoas na extrema pobreza. Destas, 4.276.466 miseraveis tem menos de 15 anos.

9. Ainda na pobreza infantil, some a essas, outras 803.766 crianças que estão na faixa de pobreza imediata, mas não têm família (são sustentadas por não familiares ou estão abrigadas).

10. O principal desafio do país é mudar a vida de 5.080.232 crianças. É um número imoral para a 7ª economia do mundo, como gostamos de nos lembrar.






























sexta-feira, 8 de abril de 2011

Jogo dos 600.000 Erros

Crianças, no Noroeste da Índia. Descubra os 600.000 erros revelados nesta foto.

O censo indiano, concluído há um mês, foi um processo gigantesco que envolveu mais de 400.000 pessoas na contagem dos quase 1.2 bilhão de pessoas. As primeiras conclusões mostram sinais positivos de crescimento nas taxas de alfabetização e de estabilidade nas taxas de crescimento. Ainda que a Índia cresça a taxas mais altas do que sua concorrente pelo topo da lista dos países mais populosos, a China.

Junto com as boas notícias, o Censo indiano leva a uma aterradora conclusão: Faltam 600.000 meninas por ano nesta contagem. Em discurso claro: 600.000 serão mortas entre a gestação e os 2 meses de vida, somente neste ano, na Índia. Eu não errei nos zeros. São Seiscentas mil, mesmo. Como o censo nos prova isto? Matemática e Demografia.

O censo mostrou que há 914 meninas (abaixo de 6 anos) para cada 1000 meninos. Mas, sem intervenção, a taxa esperada de sobrenatalidade masculina seria no máximo de 1000 meninos para cada 981 meninas. O que explica a diferença? O aborto é permitido na Índia, mas ele impactaria ambos os gêneros igualmente. A única explicação para o que o censo revelou é o Aborto e infanticídio específico de meninas. Em 18 anos de padrão semelhante, serão mais de 10.000.000 de mulheres a menos, só na Índia.

O “generocídio” (em inglês a palavra “gendercide” é amplamente usada na literatura social) tem motivações culturais e econômicas. Meninas precisam de dotes, não irão cuidar dos pais na velhice (terão que cuidar dos sogros), produzem menos, etc.

O fenômeno é tão brutal que o déficit de mulheres já provoca tensão social em algumas áreas do sul e sudeste asiático (onde 8 em cada 10 “generocídios” são cometidos). Aumento em índices de raptos de meninas, estupros e tráfico de mulheres estão documentados em todo o subcontinente. Embora não seja exclusivo de uma classe social, ele é predominantemente um fenômeno dos mais pobres. Em algumas áreas mais pobres, há menos de 600 meninas para cada 1000 meninos, i.e., as taxas de “generocídio” são muito mais elevadas.

Já se sabia do problema, mas o censo traz evidências. Saber é a parte fácil da equação. Complexo é resolver. E as soluções passam por extensos programas de melhoria das condições de vida das mulheres (escolas, emprego, etc.), ampliação ao acesso à saúde reprodutiva, etc. Os governos da região foram pressionados a tomarem medidas: tornaram ilegal para médicos informarem o sexo do bebe, no ultrassom. Tornaram o aborto sexo-seletivo ilegal. No entanto, para todas estas medidas, a sociedade cria seus atalhos. É mais fácil derrubar um regime do que mudar valores. Daí, ser essencial melhorar a vida das meninas e mulheres para que elas possam tomar escolhas livres, no futuro.

A igualdade, que nem a Escandinávia atingiu plenamente, parece um sonho distante e teórico nestas sociedades. Neste ano, 600.000 meninas pagarão com a vida esta desigualdade.












quinta-feira, 16 de setembro de 2010

4 MILHOES E MEIO DE CRIANÇAS SEM CRECHE

O Brasil tem um total 13,6 milhões de crianças de 0 a 4 anos. Estudo da Fundação Abrinq (com dados da PNAD2209) aponta que 80% delas estão fora das creches. Como há uma estimativa de crianças que, mesmo sem estar na creche, vive em famílias que podem prover estimulação, cuidado e nutrição adequadas, o Plano Nacional de Educação prevê que 50% das crianças deveriam ter acesso aos cuidados complementares de uma creche.

Conclusão: QUASE 4 MILHOES E MEIO DE CRIANÇAS BRASILEIRAS QUE PRECISAM, NÃO TÊM ACESSO A UMA CRECHE.


O levantamento mostra ainda que, em relação a 2008, houve um aumento no número de crianças atendidas muito pequeno em relação ao ano anterior - 81,9% das crianças nessa faixa etária não frequentavam creches.
Só na cidade de São Paulo, onde os chamadas de Centros de Educação Infantil (CEI), funcionam em período integral e atendem o público de 0 a 3 anos há uma lista de espera de 94.974 crianças. Mas, as crianças não podem esperar. Estudos comprovam relação direta entre a primeira infância e o futuro desempenho escolar, o desenvolvimento emocional e outros. Uma pesquisa pela Universidade de Sussex, divulgada em 2008 (www.sussex.ac.uk) acompanhou crianças britânicas por 20 anos. Mesmo descontado todos os demais fatores socioeconômicos, crianças não atendidas apropriadamente até os 4 anos, demonstraram menos chances de sucesso financeiro, maior taxas de envolvimento em eventos violentos e relatavam mais problemas de relacionamento.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação responsabiliza os municípios pela oferta da educação infantil, mas, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, governo tem de atender a demanda. Neste jogo de empurra, o Brasil deixa descoberto um período chave para todo o desenvolvimento futuro da criança.
A brecha de investimento necessária para cumprir as metas do Plano Nacional de Educação é estimada em apenas R$ 4 Bilhões anuais o que corresponde a menos de 10% do superávit primário ou ¼ do orçamento previsto para a Copa-2014.
O estudo será divulgado no Seminário Nacional, realizado hoje e amanhã, em São Paulo.

http://www.fundabrinq.org.br/portal/noticias/ano/2010/setembro-/seminario-nacional-creche-para-todas-as-criancas.aspx

(c/ trechos de Mariana Mandelli)



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

100% das crianças que trabalham nos semáforos revelam uma cidade Injusta

O orçamento do carnaval em SP é quase 3 vezes superior ao destinado a crianças em situação de risco extremo.

3000 crianças nos semáforos da cidade mais rica da América Latina e tem gente que ainda acha que o maior problema da cidade é o trânsito.

Estudo sobre traumas emocionais em crianças que trabalham em semáforos em SP expõe o que se sabe, mas é preferível ignorar.

O Trabalho da UNIFESP é importante, mas não precisamos de um estudo para saber que lugar de criança não é no Semáforo.

(Texto do Estadão)

Estudo da Unifesp mostra que 124 das 185 crianças que ficam em faróis dos Jardins e Pinheiros sofrem com problemas emocionais
Além de sofrerem violência física em casa, 67% das crianças que trabalham nos semáforos das ruas de Pinheiros, na zona oeste, e dos Jardins, zona sul, apresentam transtornos emocionais. De 185 que trabalham nessas áreas, 124 têm problemas como hiperatividade, fobias e depressão. Entre as crianças analisadas, todas tinham nível de estresse superior aos limites normais.
O diagnóstico resulta de pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), finalizada na semana passada. Entre as crianças emocionalmente abaladas, 27% têm diagnóstico fechado para distúrbios graves, como déficit de atenção e hiperatividade, transtorno de conduta (personalidade antissocial), depressão, fobias, enurese (urina durante o sono, ligada a questões emocionais) e transtorno de oposição e desafio (agressividade).
Nos depoimentos, as crianças falam em abusos sexuais (15,5% afirmaram terem sido molestadas nos semáforos), situações de violência (32,8% disseram ter sofrido espancamento) e abusos emocionais (31,6% sofrem xingamentos constantes de motoristas - o que traumatiza principalmente as mais novas).
Em alguns casos, o nível de estresse das crianças, de idade entre 7 e 14 anos, era idêntico ao de adultos diagnosticados com transtorno de estresse pós-traumático, mal ligado ao sentimento de desespero, comum em sobreviventes de tragédias. O estudo foi realizado com famílias do Capão Redondo, na zona sul, que vivem com renda abaixo da linha de pobreza (média de R$ 377 mensais).
Segundo a estimativa mais recente da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads), ao menos 3 mil crianças trabalham nas ruas de São Paulo. Menos da metade, porém, recebe algum apoio - atualmente, 1.379 crianças são beneficiadas pelo Programa de Erradicação do Trabalho Infantil da Prefeitura. Ainda assim, o apoio específico é só financeiro. Não há trabalho coordenado específico entre Smads e Secretaria Municipal da Saúde para atendimento das crianças que trabalham nas ruas.
A alta incidência de transtornos mentais surpreendeu os pesquisadores. "Na população em geral, o problema atinge cerca de 25%. No máximo, chega a 40% em comunidades extremamente pobres", disse Andrea. Em estudos realizados em Embu, Barretos e Campos do Jordão, a incidência também não ultrapassou 25%. "Como as famílias são extremamente desestruturadas, a rua acaba sendo uma fuga, preferível para a criança. Ao voltar para casa, acaba replicando novamente a violência que sofrem nos semáforos. É um círculo vicioso que só pode ser quebrado com acompanhamento."
Espancamentos. Outra descoberta do estudo é que, ao chegarem em casa, ainda é provável que as crianças sofram novos abusos, dos próprios pais - 68,4% das crianças que trabalham nas ruas sofrem punições físicas severas (definidas conforme os padrões da Organização das Nações Unidas).
De 63 irmãos dessas crianças, geralmente novos demais para irem trabalhar nas ruas, 50,8% também sofrem punições físicas em casa - uma diferença "significativa", que colabora com a permanência dessas crianças nos cruzamentos, segundo os pesquisadores.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O que fez Fernandinho virar Beira-Mar e os preconceitos do Senso-Comum

Se uma boa pergunta vale mais do que duas boas respostas, leia a matéria de “O Globo” deste Domingo. A pergunta é o que faz de um menino um mega-bandido, cruel e temido. O jornal foi atrás de outros colegas de escola. Em tom de espanto e texto verifica que nenhum dos “coleguinhas” de Beira-Mar virou bandido. A conclusão risível da matéria, tirada de um depoimento é que “Não é porque você nasce e mora numa comunidade carente que você vai virar bandido”.


O preconceito se revela na matéria partir da premissa de Beira-Mar seria explicado pelo contexto do entorno. No caso, pobreza. E constatar a “surpresa” de que isto não é verdade. Já se sabe há décadas que não há nenhum dado que mostre correlação entre comportamento criminoso e classe social. Mesmo que o preconceito nos leve a achar que a maioria dos criminosos é pobre.

A matéria conclui que cada um escolhe a vida que leva. O mesmo que dizer: nós os não pobres não somos culpados por Beira-Mar.

A pergunta é válida na medida em que ela leve a descobrir o que informa as decisões de uma criança. Os 3 equívocos da matéria: a) afirmar que tudo é escolha, mas não apontar que as escolhas possíveis não são as mesmas para todos. b) procurar a explicação para Beira-Mar dentro da comunidade dele.; c) transpor os contextos.

A primeira falha é o fato de que, embora haja um sempre existente grau de escolha em toda decisão humana, isto não significa que tudo são escolhas. As opções são feitas dentre as existentes e segundo os informadores da escolha (valores, exemplos, incentivos, etc...). Ter um mínimo de opções e acesso a informadores funcionais de escolha é um direito. Uma criança em uma área de conflito não tem acesso às mesmas escolhas e informadores. Ela é privada de direitos inalienáveis dela. Limitar as escolhas e restringir os informadores da escolha são responsabilidades da família, estado e sociedade.

O segundo erro, típico de um preceito caro à classe média é achar que Beira-Mar é um produto da “favela”. A indústria criminosa do tráfico do qual faz parte é produto do contexto social. Fernandinho escolheu ser um bem-sucedido homem de negócios crimonosos. A "oportunidade"que ele aproveitou veio do contexto de Brasília, do Palácio da Guanabara, prefeituras, da corrupção de órgãos públicos, do sistema jurídico moroso e excludente, do centro financeiro paulista, da matriz de valores da sociedade de classe média, dos países consumidores, etc. Enfim, a escolha de Beira-Mar foi dele, o contexto que lhe permitiu se tornar um dos maiores atacadistas de drogas do mundo  é o exponencial aumento no consumo de drogas, a cartelização no tráfico e a ineficiência da sociedade e estado em detê-lo. 

Por fim, o derradeiro erro da matéria é transpor o contexto da infância de Beira-Mar e seus colegas para a das crianças hoje. A matéria mescla a investigaçao com a discussão sobre a educaçao em áreas de risco, em 2010. Duas diferenças básicas foram esquecidas. Uma nas crianças da escola, outra no contexto. Uma análise mais cuidadosa teria revelado que a escola pública de 1975, tinha uma “clientela” distinta. Na época, quase 25% das crianças pobres estavam fora da escola na cidade do Rio. Isto nos faz concluir que a turma de Beira-Mar não tinha a mesma composição social (em relação ao entorno) de uma turma atual, quando quase 100% crianças pobres vão à escola. Em segundo lugar, a diferença no contexto. A insegurança e violência atuais são muito mais sérias e limitadoras do que há 35 anos. A turma de 1975 não viveu na mesma comunidade da de 2010. Nao terá as mesmas escolhas.

A resposta tem seus erros, revela preconceitos, mas a pergunta continua boa. Afinal, não é porque a pessoa é jornalista de O Globo que não vale a pena ser lida :-)



(trechos da matéria)

“Dos 23 alunos que estudaram juntos há mais de 30 anos numa escola pública em Caxias, apenas o traficante optou pela vida no crime

Em 1975, quando começou a estudar na Escola Municipal Joaquim da Silva Peçanha, na comunidade da Beira-Mar, em Duque de Caxias, Luiz Fernando da Costa tinha 8 anos e era um aluno aplicado e participativo. Da 1aà 4asérie, não repetiu de ano, nunca ficou em recuperação e sempre passou com bom desempenho.

Trinta e cinco anos depois, Luiz Fernando virou Fernandinho BeiraMar, o mais famoso bandido brasileiro, um traficante e homicida condenado a mais de cem anos anos de prisão que cumpre pena no presídio federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.

Basta acompanhar a trajetória dos colegas de turma de Beira-Mar para derrubar a premissa de que o caminho do crime é a única opção para quem nasce pobre e favelado.

Dos 23 alunos que fizeram juntos as primeiras quatro séries do atual ensino fundamental na Joaquim da Silva Peçanha, de 1975 a 1978, apenas Luiz Fernando optou pela vida no crime. O restante driblou a pobreza e as drogas, e se tornou exemplo de superação entre parentes e amigos.

Nos últimos dois meses, O GLOBO foi em busca dos coleguinhas de escola do traficante, para contar o que aconteceu com eles três décadas depois. Encontrou relatos emocionantes de pessoas bem-sucedidas, sobre oportunidades perdidas e aventuras, exemplos de muita força de vontade para vencer na vida.

Dos 22 amigos que estudaram com Luiz Fernando, um morreu: Jorgemar da Costa Fróes, ex-soldado da Brigada de Paraquedistas do Exército, faleceu aos 35 anos de insuficiência respiratória e tuberculose no dia 12 de agosto de 2002. Filho de um tenente do Exército, jogou por terra a carreira militar para viver de biscates e em rodas de pagode, mas sempre longe do crime e da droga. Jorginho Mocotó, como os amigos o chamavam, não chegou a passar da 7asérie do ensino fundamental. Está enterrado no Cemitério do Anil, em Duque de Caxias.

Dos outros, 13 são pessoas bem-sucedidas, mesmo quando desempenham um ofício relativamente simples: de cortar cabelos a dirigir Kombis. No grupo, também há suboficial da Aeronáutica, policial militar, marceneiro, mecânico, professores universitários e frentistas de posto de gasolina. Sete ainda vivem na comunidade; outros se casaram e deixaram o lugar. A maioria sequer concluiu o ensino fundamental. Uma professora universitária foi morar nos Estados Unidos. Tem um PM vivendo no Nordeste e um mecânico trabalhando na Base Aérea de Anápolis, em Goiás, onde ficam caças supersônicos da Força Aérea Brasileira (FAB). Oito não foram localizados ou não quiseram falar com o jornal, mas nenhum deles tem antecedentes criminais.

Ivan Chiara fez o antigo primário na Joaquim da Silva Peçanha. Daquele tempo, guarda boas recordações de todos os colegas de classe, inclusive de Luiz Fernando: - Leio muita história dele, mas nem todas são verdadeiras. O estudante Beira-Mar era um ótimo aluno. Depois nos afastamos, perdemos contato. Ele foi para outro caminho.

A professora Luciana Pires Alves, doutoranda em Educação na Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalha na rede municipal de Duque de Caxias desde 2001. Entre 2004 e 2007, estudou o modelo de aprendizagem de crianças do ciclo de alfabetização da Favela Beira-Mar, para escrever um artigo acadêmico. Conheceu alunos pobres, mas cheios de sonhos.

- Apesar da pobreza e da carência material, as crianças frequentavam as aulas nas escolas da região e faziam planos para o futuro longe do crime. Dizer que pobreza e carência material são condições determinantes para o crime é um absurdo. Não conheço nada científico confirmando essa tese de que negro, pobre e favelado tem uma tendência para o crime - diz Luciana.

No Rio, cerca de 1,5 milhão pessoas vivem em favelas e apenas um percentual muito pequeno está envolvido em crimes.

Mas motivos não faltam para que áreas de risco recebam investimentos em educação.

Para a doutora em Antropologia Neiva Vieira da Cunha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é preconceituosa a ideia de que pobres e moradores de favelas estão fadados a se tornarem bandidos: - Os moradores são permanentemente criminalizados por isso. Isto se deve ao fato de recair sobre os espaços de habitação popular, particularmente sobre as favelas, uma representação que perpetua uma série de preconceitos e estereótipos a respeito dos setores populares em nossa sociedade - afirmou a antropóloga.

Formada pela Universidade de São Paulo (USP), a antropóloga Ana Paula Mendes de Miranda, professora do curso de pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Nacional de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflito, observou que vários estudos demonstram que, quando a escola reproduz práticas de intolerância às diferenças, a consequência é muito pior: os estudantes acabam construindo uma relação de ódio ou descrença com a escola. O professor universitário de História Medieval e Religião Marcelo Guerra Dib concorda: ex-colega de turma de Fernandinho, ele só têm elogios à escola Joaquim da Silva Peçanha do seu tempo: - Os professores não faltavam, cobravam empenho nas aulas e quando algum aluno faltava, uma professora ia até a casa dele para saber o que tinha acontecido - lembrou Marcelo.

sábado, 5 de junho de 2010

O que Você vai ser quando Crescer?


(com textos editados de "O Globo")

Uma enquete, feita com 726 alunos de 7 a 12 anos de idade, mostrou que 407 (56%) apontam questões relacionadas com a violência como o maior problema do lugar onde vivem. Mas o levantamento vai além e traz um grito de socorro: 206 (29%) citaram especificamente os tiros e 136 (18,7%), os bandidos como os grandes vilões. Por outro lado, a polícia foi apontada por apenas 19 (2,6%) dos que responderam aos questionários

112 disseram que querem ser professores quando crescerem. Os mestres ficaram em primeiro lugar na enquete, superando até os jogadores de futebol, segundo lugar com 107 citações (14,7%), e os médicos, que ficaram em terceiro, com 85 (11,7%).

Perguntar o que a criança quer ser quando crescer faz parte da primeira fase da chamada pedagogia do sonho, parte de um projeto da Prefeitura do Rio para escolas em áreas de risco. Estudos mostram que há uma vinculação muito forte entre ter um projeto de futuro e o desempenho do aluno. Se você tem um projeto, pode até reinventá-lo depois. Um menino de 9 anos pode dizer que quer ser jogador de futebol, mas o desafio é instrumentalizar esse sonho.

Numa escola da Zona Oeste, uma menina de 9 anos pergunta como se escreve astronauta e arranca gargalhadas dos colegas. A reação da turma a faz mudar de ideia ao colocar no caderno o que quer ser quando crescer: vendedora de roupas. A cena resume o que pode parecer simples, mas que é um dos grandes desafios da escola em regiões castigadas pela violência.

Nessa nova fase, os sonhos serão documentados: — A gente chama isso de projeto de vida, no qual as crianças vão poder pesquisar todos os aspectos relacionados às profissões. Elas não vão apenas pesquisar na biblioteca, mas entrevistar profissionais para aprender todos os passos do processo relacionado à criação de um plano de vida. Começa com a pedagogia do sonho para que as crianças se acostumem a sonhar e a planejar o futuro. Elas têm que aprender que mesmo um jogador de futebol não se faz numa peladinha de rua, há todo um processo sério, com centros de treinamento.

Há um outro desafio: ampliar, para além das favelas, o universo de crianças que moram em áreas de risco. Professores e diretores contam que não são raros os casos de estudantes que têm no passeio do colégio uma primeira oportunidade de conhecer algum lugar fora da comunidade.

Na enquete, a praia apareceu como o melhor lugar a que as crianças já tinham ido, com 97 respostas (13,3%). Em seguida, vieram o shopping center, com 44 (6%), e o cinema, com 37 (5%). Uma curiosidade: 17 alunos apontaram a própria escola como o local mais interessante a que já foram