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quarta-feira, 5 de março de 2014

As Notícias da Morte do Movimento Popular são um pouco Exageradas



Ciência é demolidora de consensos. Boa ciência serve para desdizer o que o senso comum, a timeline do facebook e a torcida do flamengo pensam ser verdade. E ciência da boa tem feito o mexicano abrasileirado, Gurza Lavalle (CEM, FFLCH-USP), brilhante herdeiro do tema de participação e movimentos sociais, na minha querida FFLCH.


Nos últimos 30 anos, os movimentos sociais, principalmente os da América Latina, foram muito estudados. Geralmente são identificados como atores essenciais nos processos de democratização. Seu desenvolvimento posterior à volta das eleições no continente, também é visto como uma evidência (causa ou reflexo, dependendo do analista) de uma suposta decadência democrática ou de uma “pós-democratização”, na qual a ação política se tornaria somente instrumental, neo-clientelista ou de "consumismo de bens públicos".

E 5 de cada 4 pesquisadores :-), parece identificar que, a partir dos anos 1990, houve uma mudança da sociedade civil e que ela se deu de forma substitutiva – isto é, com certos tipos de atores tomando o lugar de outros. Isso teria culminado, a partir de meados dos 90, numa preponderância das organizações não governamentais (ONGs), deslocamento que ficou conhecido como “onguização” dos movimentos sociais.

Associados à "Onguização", a maioria dos analistas identifica uma decadência (mais forte neste século) na capacidade de articulação e protagonismo politico dos movimentos. Tornou-se comum um “blues” de quando os movimentos populares eram ativos e fortes. Igual aos rubro-negros saudosos do time de Zico-Júnior :-) A tônica comum nas análises segue o consenso de que os movimentos populares, formados pelos próprios interessados nas demandas de mudança, teriam cedido espaço para organizações que também defendem mudanças, mas em nome de grupos que não são seus membros constituintes (Advocacy, na terminologia das ciências sociais). Essas ações supostamente teriam gerado uma despolitização da sociedade civil.

A pesquisa de Lavalle e equipe desmentem a tese da "Onguização".  Ele não entra no debate do que é ONG (este nome genérico, quase uma ficção linguística que coloca no mesmo saco gatos tão distintos quanto o Hospital Albert Einstein, o Asilo  Kardecista, a Consultoria disfarçada de ONG e a Associação dos Colecionadores de Carrinhos de Rolimã). Porém empresta da literatura tradicional a ideia da evolução dos atores sociais em  ondas distintas.  A 1ª onda seria a das organizações tradicionais, como as entidades assistenciais ou as associações de bairro (criadas em razão de demandas sociais de segmentos amplos da população, maiormente durante a vigência da ditadura). A 2ª onda, na qual as costumam ser agrupadas as organizações denominadas de ONGs e que, por sua vez deram origem às entidades articuladoras, aquelas que trabalham para outras organizações, e não para indivíduos, segmentos da população ou movimentos localizados).

A pesquisa utiliza como aproximação aos “movimentos sociais” são organizações populares, “entidades cuja estratégia de atuação distintiva é a mobilização popular”, como o Movimento de Moradia do Centro, a Unificação de Lutas de Cortiços e, numa escala bem maior, o Movimento dos Sem-Terra. Estas, na rede, estão em pé de igualdade com as ONGs e as articuladoras. Numa posição de “centralidade intermediária” estão as pastorais, os fóruns e as associações assistenciais. Finalmente, em condição periférica, estão organizações de corte tradicional, como as associações de bairro e comunitárias.

Em grande parte, a novidade da pesquisa se deve à aplicação de novas ferramentas, baseadas na análise de redes. A "Network Analysis" uma abordagem usada amplamente em Ecologia, Epidemiologia e Linguística. Ela detecta padrões de difusão, permite identificar estruturas indiretas e conexões. Assim, Lavalle e equipe começaram a superar as visões baseadas em abstrações ou em modelos teóricos mais ortodoxos do que o sistema de defesa de técnico gaúcho..

O método usado pela equipe para verificar a estrutura de vínculos entre as organizações foi o "bola de neve". Neste, cada entidade foi chamada a citar cinco outras organizações importantes no andamento do trabalho da entidade entrevistada. Adicionou-se a esta lista declaratória, as relações institucionais e financeiras.  Na cidade de São Paulo foram ouvidos representantes de 202 associações civis (as do tipo da primeira onda, excluindo portanto as "ONG's"), que geraram um total de 827 atores diferentes, 1.368 vínculos e 549.081 relações potenciais.

Quando analisadas as conexões, foi possível avaliar a influência das associações, tanto na sociedade civil quanto em relação a outros atores sociais e políticos. Esse resultado foi obtido por um conjunto de medidas que computam os vínculos no interior da rede, não só aqueles diretos ou de vizinhança, mas, sobretudo, aqueles indiretos ou entre uma organização e os vínculos de outra organização com a qual a primeira interage e aos quais não tem acesso direto. Assim, foi possível investigar as posições objetivas dos atores dentro das redes, assim como as estruturas de vínculos que condensam e condicionam as lógicas de sua atuação.

Essa rede permitiu identificar  as conexões políticas das associações. A sociedade civil se modernizou, diversificou-se e se especializou funcionalmente, tornando as ecologias organizacionais da região mais complexas, sem que essa complexidade implique a substituição de um tipo de ator por outro.  Em uma análise comparativa as Associações civis são mais conectadas do que as chamadas "ONG's".  vitalidade dos movimentos sociais, semelhante à das ONGs. As associações civis, formadas pelos próprios interessados, mostram conexões ativas tanto com atores públicos-governamentais/não-governamentais e privados. 

Assim, os estudos de Lavalle  contradizem a tese senso comum da “onguização”. Parafraseando Mark Twain, ao escrever a um jornal que havia noticiado sua morte: As Notícias da Morte do Movimento Popular são um pouco Exageradas :-) Todos os dados obtidos contrariam diagnósticos dos "viúvos dos anos 80", que insistiam de que a sociedade civil atual seria formada de organizações orientadas principalmente para a prestação de serviços e a trabalhar com assuntos públicos de modo desenraizado ou pouco voltado para a população de baixa renda.

Lavalle conclui que “as organizações civis passaram a desempenhar novas funções de intermediação, ora em instituições participativas como representantes de determinados grupos, ora gerindo uma parte da política, ora como receptoras de recursos públicos para a execução de projetos”. Absorver novos papeis não representou a perda dos anteriores, mas a sua transmutação. Assim, “as redes de organizações civis examinadas são produto de bolas de neve iniciadas em áreas populares da cidade e por isso nos informam a respeito da capacidade de intermediação das organizações civis em relação a esses grupos sociais..”

Outros estudos confirmam as conclusões deste trabalho, como os de Paulo Velho (UFES) e Lígia Lüchmann (UFSC) para quem “a sociedade civil é hoje funcionalmente mais diversificada do que costumava ser, com atores tradicionais coexistindo com os novos”. Assim, estudos como o de Lavalle vêm corroborar a ideia de que tendências mais visíveis não podem ser tomadas como hegemônicas e de que a sociedade tende a ser muitas coisas ao mesmo tempo. As classificações lineares ou evolucionistas servem para dar tranquilidade intelectual, ideia de controle e entendimento; mas não se verificam no tecido social. Para fora das portas da Universidade, o mundo segue extrapolando a teoria. 

Ao assumir a heterogeneidade e complexidade das organizações civis, há implicações não só para a análise, mas para a ação política e pública. Por exemplo, em relação à regulação sobre o terceiro setor. A heterogeneidade demanda um marco de análise menos engessado e, em tempos de definição do Marco Civil, pede leis menos restritivas, que não pretendam uniformizar; mas se concentrem em oferecer segurança jurídica.

Afinal,  já está cientificamente provado que a torcida do Flamengo está errada :-); logo a realidade não segue a opinião da maioria. Não concorda? Consulte sua timeline... :-)


Para ir além
  1. GURZA LAVALLE, A. e Bueno, N. S. Waves of change within civil society in Latin America: Mexico City and Sao Paulo. Politics & Society. v. 39, p. 415-50, 2011
  2. Mobilidade dos Movimentos Sociais, FAPESP, Fev 2014. MFerrari 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O MUNDO QUER SABER SE VOCÊ ESTÁ FELIZ



A busca pelo graal de um índice que reflita o estado de bem-estar integral já conta com mais 40 anos de história. Inicialmente desprezada como poesia pelos economistas, o tema ganhou terreno nesta última década e invadiu departamentos sisudos como os da Universidade de Chicago, Yale e Berlin. Mais recentemente, chegou até aos Bancos Privados (Ex: Banco Itaú, que criou e mede o Índice Itaú de Bem-estar Social) e Grandes Corporações (BP).

Um dos motivos que impulsionou o tema foi o divórcio (se é que um dia foram casados:->) entre a trinca de indicadores clássicos (riqueza, escolaridade e longevidade) de outros como: desigualdade, paz social, suicídios, poupança/esperança, etc. Nos manuais de Economia, tudo viria em um pacote só. Tipo combo do McDonald’s. Ficou rico, leva a batatinha, quer dizer, a paz de brinde. Mas, para surpresa dos economistas (PS: Justiça seja feita aos maridos traídos, na verdade são os Economistas os últimos a saberem das coisas:->) países estão ficando mais ricos educados e longevos e; ao mesmo tempo, a vida (ou a percepção dela) piora. Até o monitoramento do progresso das Metas do Milênio mostra que mesmo países que avançam significativamente nas Metas não experimentam necessária correlação deste avanço com indicadores de qualidade de vida, nem as medidas, nem as percebidas.

Daí, é um quase consenso hoje o tal “Paradoxo do Crescimento”, um nome científico complexo para o que minha avó dizia: “menino, o dinheiro não traz felicidade”.

Até um índice de Felicidade Interna Bruta foi criado e produziu aumento de programas de televisão sobre o bucólico Butão, campeão global do índice, mesmo que nem se deem conta da sua existência. Alias, talvez por isto sejam felizes, porque não se preocupam com indicadores.

A despeito da fragilidade metodológica destas tentativas, é certo de que o mundo precisa de medidas mais antropocêntricas para olhar no espelho. Desenvolvimento bom é o que muda positivamente a vida da maioria das pessoas. Porém que ninguém seja Poliana. A onda dos índices de felicidade tem uma agenda política e mesmo comercial por detrás. Uma das indústrias de crescimento mais surpreendente, durante o atual período de crise econômica e austeridade tem sido "indústria da felicidade". Felicidade passou a ser objeto de trabalho crescente de economistas e matemáticos (e não filósofos ou cantores de axé somente) que estudam o que constitui a felicidade e fazer recomendações aos governos sobre como melhor para aumentá-la.

Não podemos desprezar o fato de que tais índices ganham a agenda pública dos ex-ricos do Norte justamente quando a crise econômica mais os atinge. Em meio a um aumento substancial da miséria, em uma época de baixa reputação dos magos das finanças, quando parecem faltar respostas não-convencionais a problemas históricos (o fato de que a riqueza do Norte foi alavancada no pós-guerra com base em exploração de matérias-primas + mão de obra baratas em outros países, aliados a pesados endividamentos em moedas autoproclamadas fortes), surgem economistas vetustos criando um novo conjunto de indicadores para debate.

A indústria do índice de felicidade tem conseguido recentemente um auge com a publicação mega-divulgada do primeiro Relatório Mundial Felicidade. Encomendado por uma Conferência das Nações Unidas sobre Felicidade, sob os auspícios da Assembleia Geral da ONU, que traz o imprimatur da Universidade de Columbia (Earth Institute) e é editada pelo seu diretor, Jeffrey Sachs (economista pop star, ex-liberal, convertido ao credo do Desenvolvimento) e por dois especialistas em felicidade (seja lá o que isto signifique), Richard Layard (London School of Economics) e John Helliwell (Universidade de British Columbia). O relatório conclui que o mundo é mais feliz no norte da Europa (Dinamarca, Noruega, Finlândia, Países Baixos) e mais infeliz na África (Togo, Benin, República Centro Africano, e Serra Leoa). Além de contrariar os que acham que é necessário sol e praia para ser feliz, o relatório traz poucas novidades nos resultados. Mas, é a primeira tentativa econométrica robusta de constituir um índice destes (o Índice Bruto de Felicidade é legal, mas é mais poesia do que medição).

Se ainda não sabemos como medir ao certo a felicidade, um grupo já está feliz ganhando recursos públicos e privados para tentar medi-la. O governo dos EUA convidou peritos, incluindo Daniel Kahneman (psicólogo, Nobel de Economia) para elaborar medidas de "bem-estar subjetivo". Mantendo sua tradição, os EUA são o último grande país a embarcar nesta canoa. O governo francês começou a publicar sua própria felicidade indicador em 2009. O Gabinete Nacional de Estatística da Grã-Bretanha tem um programa para medir o bem-estar nacional, há 5 anos. A OCDE já elabora diretrizes para os seus membros produzirem um "banco de dados de bem-estar". O Brasil já incluiu, em algumas pesquisas do IBGE, a percepção de segurança e esperança.

Os pesquisadores dividem os sentimentos das pessoas em "felicidade afetiva" (humores diários) e "felicidade avaliativa" (avaliação global que uma pessoa faz de sua vida). Eles construíram indicadores que buscam a felicidade a partir de diferentes pontos de vista, usando perguntas como "Quão feliz você estava ontem?" (Reino Unido); "Todas as coisas considerado, quão satisfeito você está com sua vida como um todo hoje em dia? "(IRS Europeu) e" Tomando em consideração todas as coisas, você diria que é: muito feliz, muito feliz, não muito feliz ou nada feliz "(World Values Survey)?

Eu me pergunto quem responde a um questionário destes? Se eu fosse perguntado, logo responderia com uma contraproducente pergunta: Defina “satisfeito”. Logo, o entrevistador seria um exemplo claro de pessoa infeliz se a mim viesse entrevistar. Mesmo que os demais entrevistadores seja menos chato do que eu, as suas respostas diferem muito. Isto estimula ainda mais a nascente “ciência da felicidade”. Os autores do Relatório de Felicidade Mundial argumentam que a felicidade pode ser medida objetivamente, mesmo que difira sistematicamente através das sociedades e ao longo do tempo. Por fim, partem do pressuposto de que a felicidade tem causas previsíveis e que, mesmo não de maneira linear, está correlacionada com coisas específicas (tais como a riqueza, a distribuição de renda, saúde e instituições políticas). Logo, portanto, deve ser possível para o governo a criar as condições adequadas para a felicidade a florescer.

Por mais desejável e necessário que seja olhar o bem-estar, os críticos destes índices argumentam que além da dificuldade técnica, trazer a felicidade para a agenda pública é dar ao Governo é responsável por sua felicidade. E a agenda da felicidade também chegou (ou está a caminho) ao marco jurídico de vários países. O Direito a ser feliz já foi aprovado pelo Senado brasileiro e está presente em leis de países como Japão, México e Suécia.

Por isto, o que lhe faz feliz já não é mais tema de propaganda de supermercado nem chaveco para a balada. Você está feliz com isto?



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

PORQUE NÃO SOMOS 7 BILHÕES. MAS, ISTO NÃO IMPORTA TANTO...


Hoje, fim de mês, a ONU fecha a conta do mundo em 7 bilhões. Isto não é uma estatística, é uma marca:).

O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) tem uma tradição de exagero. 7 Bilhões é uma estimativa par cima, baseada em projeções . Os motivos principais para a superestimativa:

1. Defasagem: As estimativas se baseiam em dados primários que estão muito defasados para mais de 30% da população mundial.

2. Urbanização: O UNFPA continua estimando taxas de crescimento baseadas nos mesmos perfis rural/urbano, de quando os dados primários foram tomados. Mas, pesquisas amostrais mostram que a urbanização é maior do que a estimada, portanto a taxa de crescimento deveria ser corrigida.

3. Imprecisão: Outro ponto é da natureza dos governos sempre colocar os números para cima (coisa de homem isto kkk). O ILDES fez uma validação e dados de Censo no Chade, Nigéria e Bangladesh e verificou que a população estaria superestimada em 14%, em média. Populações tribais, por exemplo, estão sendo contadas na vila de origem e na cidade onde realmente vivem.

4. Mas metade da população mundial já mora em países em que as pessoas têm menos filhos do que precisariam para repor as gerações (abaixo de 1,8 filhos)

Assim, os dois outros centros de estudos populacionais (ILDES-Paris I e BPPT-Standford) e mesmo alguns demógrafos do próprio UNFPA estimam que estejamos entre 6.4 e 6.7 bilhões.

Seja 6.4B ou seja 7B, toda vez que estes números são divulgados, o Reverendo Metodista Thomas Malthus volta a povoar os pesadelos de muitos. A imagem que se tem é que o planeta virará uma imensa Estação da Sé às 18h00min. A imagem de ficção cientifica é completada com fome, sede, doenças e governos totalitários. O fantasma da Superpopulação.

Se você é do tipo que gosta deste fantasma, pare de ler por aqui e vá estocar água, comprar um sítio em Alto Paraíso ou coisa assim. Se quiser trocar seus pesadelos por alguns dados da realidade, siga:

1. O que mais ameaça o equilíbrio população X recursos não é a quantidade, é a desigualdade associada à insustentabilidade do modo atual de produzir/consumir.

a. A ameaça de escassez de recursos não está diretamente relacionada ao número total de população, mas aos modos de produção e consumo. Bastariam 2 bilhões de pessoas no mundo, com o consumo médio de água dos ingleses para que houvesse sede. Ou se Índia e China (~35% da pop mundial) repetissem o consumo de gasolina americano, não haveria petróleo para mais ninguém. Se os africanos usassem na sua agricultura e pecuária a media de consumo hídrico usado nas mesmas atividades, no Brasil, teriam que importar água para beber.

b. O Mundo produz hoje, somente em grãos o suficiente para que cada habitante coma 800g/dia. A produção atual já seria suficiente para que não houvesse fome. Mas, há. Quase 15% da população mundial tem menos acesso à comida do que precisava. No popular, passa fome.

c. Somente da água desperdiçada pela falta de esgotos (menos de 30% da população mundial tem acesso a esgoto com tratamento completo) e contaminação industrial seria suficiente atender às demandas da agricultura e de mais uma população de mais de 10 Bilhões de pessoas.

2. O padrão de ocupação da população traz mais desafios do que o seu tamanho. A urbanização crescente reduz a população, mas traz problemas ambientais sérios.

a. Outro dado que os catastróficos demógrafos do UNFPA não consideram é a concentração. O mundo está mais vazio do que há 50 anos. Não me refiro à Estação da Sé, mas à concentração média. Temos muito mais gente ocupando menos espaços e muitos espaços tornando-se mais vazios. Modo de produção agrícola mecanizada, esgotamento ecológico e/ou econômico de regiões inteiras, etc.

b. Outra agência da ONU, a UNSRID estima que em 2050, +de 60% da população mundial viverá em torno de menos de 100 aglomerados. Algo como 100 imensas estações da Sé. Logo, o desafio não é a quantidade, é o padrão ocupacional.

c. A urbanização reduz a população em quase todos os países pesquisados na mesma taxa prevista pelo Axioma de Caldwell (nas sociedades tradicionais, principalmente as rurais, o fluxo de riqueza entre gerações é predominantemente dos filhos para os pais, ou seja, os pais precisam investir pouco nos filhos em termos de educação, capital humano, mas existe um fluxo de riqueza dos filhos porque eles começam a trabalhar desde cedo, contribuem para a renda da família e sustentam os pais na velhice. Então, numa sociedade tradicional rural, é bom negócio ter muitos filhos. Já a economia urbana se baseia muito na educação como instrumento de ascensão social. Também existe menos necessidade de se procriar para ter segurança na velhice na medida em que existe maior cobertura do sistema de aposentadorias. Na economia urbana moderna, portanto, o fluxo de riqueza é mais de pais para filhos.

d. A África é o continente que terá o maior ritmo de urbanização nas próximas décadas. Isso impactará o crescimento das populações. Elas vão depender de mais atividades econômicas urbanas e as mulheres terão mais oportunidades de trabalho. A urbanização, ocupação e a educação das mulheres têm mais forte influência na redução na taxa de fertilidade do que a religião. Países mulçumanos como Irã, Malásia e Filipinas provam isto.

3. O perfil populacional é mais importante do que seu número total.

a. Mais idosos. O crescimento dos idosos e a redução na taxa de fertilidade fazem com que sociedades hoje despreparadas para esta situação tenham que enfrentá-la. Além das óbvias questões econômicas (previdência); isto impacta no sistema de valores, na estrutura familiar, etc.

b. Mais jovens: O aumento na proporção de jovens seguirá ainda por 30 anos. Isto traz o desafio de geração de empregos, inclusão política e social de um enorme contingente. Os jovens representam o grupo que mais emigra, quando não encontra condições de desenvolvimento, o que aumenta a tendência à mobilidade populacional.

4. No plano político, não há nenhuma correlação demonstrada entre regimes e demografia. Ao contrário, países maiores tendem a ganhar mais contornos democráticos.

Olhar o número da população total mundial é procurar informação no dado errado. O problema é o padrão de ocupação, de produção, consumo e fluxo de pessoas.

O UNFPA acha que chegamos a 11B em 2100, mais ou menos na mesma época em que o Corinthians chegar à final da Libertadores. Mas, a maioria dos demógrafos (inclusive alguns do próprio UNFPA, como Ralph Hakkert) crê que a população não passa dos 9.2B, e que 2050 será nosso ponto culminante.

Logo, há poucas esperanças do Corinthians chegar à final ganhar de uma Libertadores ou que a Estação da Sé fique mais vazia, antes que o mundo atinja seu pico :-)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

BRASILEIRO NÃO É "TÃO BONZINHO"...


Eu sou muito novo para ter visto :-), mas me contaram, vi no Youtube, etc que na década de 80 havia em um quadro de humor na TV onde uma personagem (a atriz americana Kate Lira) era sempre enganada, mas ingenuamente repetia o bordão: “brasileiro é tão bonzinho”.

Bem, a julgar por Duas pesquisas recentes (excelentes trabalhos dos “sociólogos de sabonete”, isto é, sociologia aplicada a pesquisas para que as pessoas comprem mais). Brasileiro não é bonzinho.

Era de se esperar que os últimos 5 anos de crescimento econômico que fazem a festa do consumo de carros a iogurtes, também tivessem reflexo no montante de brasileiros que doa e no montante doado pelos brasileiros. Não teve.

Em países em crise como Espanha e Irlanda, não houve queda na quantidade de pessoas que doam. E mesmo a queda do montante médio foi pequena. No Brasil, nada mudou nas duas versões da pesquisa (2008 e 2011). Somos um país onde poucas pessoas doam pouco. Pelo menos, através dos mecanismos sociais de doação (entidades filantrópicas, religiosas, de ajuda mútua, etc.).

Um das pesquisas, feitas pela GFK em 14 países (13.950 pessoas com mais de 15 anos em 14 países: Alemanha, Bélgica, Brasil, Espanha, EUA, França, Holanda, Hungria, Itália, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca e Romênia.) estima que 29%, ou um em cada três brasileiros é doador para instituições filantrópicas.

A média mundial é de 38%. 2 em cada 3 das pessoas na Holanda e 50% da população do Reino Unido e da Suécia contribuem com dinheiro todo ano. No entanto, os alemães fazem jus à fama de mão fechada :-) 20% somente doam. (PS- Nos EUA, 41% dos americanos afirmam ter o hábito de doar dinheiro.)

Das pessoas que doam dinheiro, mais da metade (52%) revela que pretende doar este ano o equivalente a R$ 456,00 (até 200 euros). Já no Brasil, 73% doam até este teto.

A pesquisa mostra ainda que quem doa mais roupas e cestas de alimentos, tende a doar menos dinheiro. Na outra via, quem destina mais tempo para trabalho voluntário, doa mais dinheiro também.

1. Para quem doam?

1.1. No Brasil: Para as organizações de bem-estar de crianças estão em 1º no ranking (56%) e para as organizações religiosas (24%).
1.2. Na Europa: As crianças ganham também (39%) e Programas humanitários e/ou combate à pobreza (34%).

2. Por que doam?
2.1. Brasil: 74% afirmam que realizam doações por conta da orientação religiosa ou filosófica. Índice + alto do mundo. 18% por se sentirem relacionados à causa
2.2. Europa: 50% afirmam que realizam doações por conta da orientação religiosa ou filosófica. 35% dos europeus porque se sentem relacionados com a causa

3. Por que não doam?
3.1. Brasil:
  • 61% dos que não doam, afirmam que não tem recursos ou que já doaram, mas não doam mais.
  • Outros 28% dizem que não confiam nas instituições. Por exemplo, antes de para as crianças, os doadores do Criança Esperança doam porque confiam na Rede Globo (8 em 10 diz nem conhecer a parceira UNESCO). E isto vale para o bem e para o mal. Do lado dos que não doam, a antipatia também não e com a causa, é com a Globo.
  • Um pequeno contingente (sincero) diz que não doa porque não quer.
3.2. Na Europa: 21% dos que não doam afirmam ser por vontade própria.


Os fatores de análise dos motivos das doações encontra os dados de outra pesquisa, de Mário Matos. Nela, ela analisa o quanto um “selo socioambiental” influencia na decisão de compra. Quantos estão dispostos a pagar a mais pelo valor socioambiental agregado?

A conclusão é que o valor agregado por uma imagem socioambiental existe, embora seja limitado, mais forte em mulheres e não vinculado a uma causa. Além disto, Matos aponta para a constatação de que a decisão é baseada mais na reputação e consistência da marca do produto do que na causa em si.

Por esta pesquisa, o famoso ditado “dize-me com quem andas que te direi quem és”, no caso de valor socioambiental é o contrário: “dize-me quem és e te direi com quem andas”

Difícil concluir muito deste tipo de pesquisa. Mas, os dados parecem indicar o crescimento econômico brasileiro tem tido reflexos na conta de supermercado, mas não nas doações. 

E, quando doamos, fazemos mais por orientação e confiança do que por destino ou resultado. Curioso é que nos vemos como um povo muito bom. 84% dos entrevistados se consideram generosos. Nossa auto-imagem é de Madre Teresa de Calcutá, nossa ação não.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nem Freud explica. Ainda Bem.


Amigos meus passaram a noite de domingo em seus computadores para fazer correlações eleitorais.

Melhor seria terem ido à balada. Todas as tentativas de explicar os votos por renda, escolaridade, IDH, cor não deram em nada digno de nota. As que existem não passam pelo teste do “todos contra mim”. Não se repetem mais do que todas as outras somadas.

Candidatos com menos votos até apresentam correlações. No 1º. Turno, a candidata Maria Silva apresentou um viés muito claro de voto X indicadores sociais. Mas, eleições de 2º. turno já são tradicionalmente refratárias a este tipo de tentativa explicativa. Trata-se de um pleito onde o voto é decidido quase igualmente com base na opção e na rejeição.

Além disto, nesta eleição se aprofundou o fenômeno de descolamento entre indicadores e voto. Ele ainda é percebido nas duas extremidades dos indicadores. Mesmo assim, aparentemente só para renda. Isto é, os muito ricos e os muito pobres divergem profundamente em seus votos. Fora isto, nos casos dos dois candidatos, as demais diferenças forma pífias e não dão base para teses.

Religião, renda, escolaridade, gênero, cor, hábitos de leitura, etc. Nenhum dos indicadores sozinho baseia mais de 8% de viés. E ainda não sustentados, i.e., que não se repetem. Mesmo quando há aparente correlação dentro de um estado, ela não se sustenta na análise nacional. Pessoas com baixa renda votam diferentemente em estados distintos. Pessoas com nível superior em um divergem de seus pares em outro.

O que explica o voto então?  Os indicadores sociais certamente não são neutros na equação da decisão, mas eles não explicam. Eles compõem uma lógica decisória por camadas. Para tristeza dos que crêem em lógicas estruturantes para toda decisão, como se o ser humano fosse determinado a certas escolhas pelo seu contexto, as diferenças de votos parecem ter 3 camadas: familiar, pessoal,  geográfica e estruturante (indicadores).  Famílias votam unidas em 8 de cada 10 casos no Brasil. Pessoas votam como seus amigos mais chegados em 7 de cada 10. Em municípios de até 100.000 habitantes, 68% tiveram comportamentos eleitorais homogêneos. Por fim, há as opções relacionadas às condições.


O complexo na decisão é que estas camadas são sobrepostas e combináveis, e, de acordo com o indivíduo, exercem pesos distintos. O que é a desgraça dos analistas é a fortaleza da Democracia. Eleições com todas suas imperfeições (a principal delas na desigualdade entre candidatos com grandes estruturas/capacidade de arrecadação e os demais) ainda são espaços de opção não controláveis. Por mais que os marqueteiros influenciem, a lógica decisória não é previsível.

Resta a constatação que 99% dos torcedores do Fluminense votaram em Fred porque Washington virou "embaixador da boa-vontade", só conversa com o goleiro adversário.















quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Corrupção Percebida


A Transparência Internacional divulgou o atualizado Índice Internacional de percepção de Corrupção.



Como o nome diz, reflete o sentimento das pessoas acerca da lisura dos processos públicos e privados. Seria impossível medir a corrupção objetivamente, dentre outros motivos, porque as fontes também são corruptas.


O índice da Transparência tem mais significado de análise local, do que comparativo. Não é possível medir o Chile com a França, por exemplo. Mas, é altamente significativo constatar a evolução dos índices dentro de cada país.


A comparação dos índices com outros fatos também fornece informações. Países que têm trabalhado mais duramente contra a corrupção tendem a aumentar seu índice de percepção da mesma. Parece contraditório, mas é facilmente explicável. Quanto mais se fala no tema, quanto mais ele é exposto, por exemplo, através de grandes investigações e prisões em cadeia nacional (sem trocadilho), mais a corrupção se torna visível.


O índice de percepção é importante também porque antecipa comportamentos. Em sociedades onde as pessoas crêem que haja corrupção, o nível de confiança diminui. Isto gera um custo desconfiança que passa a ser integrado nos modelos de troca, sejam elas econômicas, sejam simbólicas.


Como diria Platão em lagoa com piranha, jacaré nada de costas :-)


Os dados detalhados do índice:


http://www.transparency.org/policy_research/surveys_indices/cpi/2010/results



e o relatório


http://www.transparency.org/content/download/55725/890310

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Opinião e Religião


Em época de discussões acaloradas sobre fé e lei, esta curiosa correlação foi apresentada pela Pew Research (líder mundial em análises de comportamentos), baseadas uma pesquisa feita nos EUA (no Brasil, como seria o resultado?).

Como diz a pesquisa, os brancos evangélicos são os mais contrários a união entre pessoas do mesmo sexo. Mas esta posição vem mudando com o tempo.

Pela primeira vez desde que o Pew Research Centre começou a conduzir pesquisas sobre o assunto em 1995, menos de metade dos americanos (48%) se opõem ao casamento gay, enquanto 42% são favoráveis. Todos os grupos religiosos são mais aceitação do que eram em enquetes tomadas entre 2008 e 2009. A mudança mais notável é entre branco mainstream protestantes e católicos, 49% dos quais estão agora a favor, e esse número foi ainda maior para aqueles que freqüentam a Igreja menos de uma vez por semana.

Diga-se de passagem, Bento XVI é coerente, no tocante ao clero, é também contrário a união entre pessoas de sexos distintos kkkk